quinta-feira, 9 de julho de 2026

Memórias de Um Menino Descalço


 

Memórias de Um Menino Descalço

                 A Fé

O menino assistia homens de fé arraigada com cruzes no espinhaço.

Subiam os degraus de longa escada até os pés da santa. 

Nossa Senhora recebia os fiéis.

Prometia resolver seus problemas.

Mandar chuva depois de longa estiagem. 

A chuva renovava a esperança de ver a roça florida.

As panelas cheias de tudo que a terra dá. 

De olhar atento no sofrimento do sertanejo.

A Santa abençoava o pedido do agricultor por chuva. 

O verde do vale invadia a terra preta nas invernadas.

E os olhos do menino de prazer. 

Como as secas dizimavam tudo.

O menino via que o corpo do povo também secava.

Tristeza de tudo ao derredor.

Na face do agricultor também não podia faltar. 

O menino sentia que a fé do agricultor era inabalável.

Sarava até doenças.

Joelhos entrevados eram curados.

Pernas feridas saradas.

Ossos quebrados ligados.

Coração partido por uma paixão não correspondida.

Era acalentado.

A santa abençoava todos que a si chegava com fé na cura dos seus males.

Até as chuvas mandadas por ela.

Fazia a cara do homem sorrir e a do vale também.

Ao menino a santa abençoou a ter fé no futuro.

Que depressa chegaria ao crescer e virar homem.

Foto Google

sexta-feira, 26 de junho de 2026

CORTE TUDO

Corte tudo que quiser desse Zé Mané!

Entenda, não vou ceder sem reclamar!

Não sou otário de não lutar pelos meus direitos.

Te dou meus braços pra decepar. 

Beleza?

Mas a dor maior é saber que vou ficar sem os abraços dos chegados.

Com cotocos não damos socos.

Corte minhas pernas.

Sei que vou deixar de correr em busca do sol do meu horizonte.

Vou deixar de caminhar em busca das cores da aurora boreal do meu viver.

Corte meu falo!

Sei que vou sentir muito ao dizer pro meu amor que: JÁ ERA!

Aquela transa que fervia ao vê-la tão bela despida sem pudor.

JÁ ERA!

Corte meu cabelo, minhas tranças em branca ascensão.

Minha carequice...

Digo!

É resquício da minha luta pra não morrer pelo tédio da acomodação.

Meu pescoço?

Te dou o pescoço pra você cortar!

Se for bonzinho...Só torcer!

Curtinho, sim!

De nordestino que carregou balaios de gatos azunhando.

Me deixe as veias que se ligam ao meu coração.

Meu cérebro precisa de irrigação.

Corte tudo que for meu!

O cartão de crédito, o emprego.

Me desaloje de casa, queime meus bens.

Meus livros não, desgraça!

Só peço uma coisa que você nem imagina qual seja:

O poder de continuar a sonhar!

O poder de ter um cérebro para criar novas rotas no imaginar.

 

 

 

 

sexta-feira, 12 de junho de 2026

Memórias de Um Menino Descalço - A Lua

 

Memórias de Um Menino Descalço

A LUA

Tinham noites que o menino admirava a Lua Cheia.

Na solidão esperava um beijo na face entristecida.

Ela enchia seus pensamentos de sonhos impossíveis.

Viajar na cauda de um foguete e pousar no coração de São Jorge.

Era o pensamento que envolvia o menino desamparado na solidão do mato.

Os sonhos se multiplicavam na sua cabeça.

Quando a Lua refletia como uma bola no céu da sua infância.

Pincelada com cores negras e prateadas.

Ou alaranjadas.

Iluminava os campos e as serras.

A casa de taipa onde o menino morava.

Era cercada de pobreza.

Viajar pra um lugar distante.

Já ocupava a sua cabeça.

As noites do sertão.

Fora do tempo das bem-vindas chuvas.

Nunca negou a Lua iluminando seus caminhos desfigurados.

Nas noites sem ela.

Era um só breu.

O medo fazia o menino ficar na rede.

Ela balançava ao toque dos pés na parede próxima.

Para o menino andar ao redor de casa quando o sol sumia.

Só quando a Lua Cheia dava as caras.

Imagem Google.

Memórias de Um Menino Descalço - Jogos de Bila

 

Memórias de Um Menino Descalço

Os Jogos de Bila

Jogar bila nos dias sem chuva. 

Oh gostusura!

Na rua de terra.

Na pracinha das brincadeiras de pernas soltas e pensamentos livres.

Divertido era pra quem ficava com os bolsos cheios.

De tristeza ressentida para quem saía com os bolsos vazios.

No formato de triângulo eram os buracos cavados.

Com algum instrumento.

Como faca, canivete, pedaço de pau. Entusiasmo.

Cada bolinha de gude grudada no dedo polegar.

Apertada no dedo de apontar.

Viajava em direção a outra com velocidade divertida.

Acertar a bola de gude do opositor era o desejo.

O menino gostava dessa vadiagem inocente.

De brincar com os colegas.

Apostava na certeza de perder ou ganhar.

O barulho das pancadas na bolinha do adversário.

Trazia a certeza da paz.

Da vitória.

Ela se consagrava quando a bolinha caía no buraco escolhido para se recolher.

Cada matada na bolinha de vidro.

Fazia o menino sentir-se dominado pelo prazer do jogo.

As partidas só acabavam quando o perdedor arregava.

Estava ficando sem as bolinhas que tanto gostava.

Era nessa hora que arrumava desculpas para abandonar o jogo.

Dizia: preciso ajudar mãinha!

O jogo não acabava.

Outros meninos estavam na fila pra novas disputas.

Imagem Google.


 

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Memórias de Um Menino Descalço - Bolas de Meia

 

Memórias de Um Menino Descalço

As Bolas de Meia

As meias eram preenchidas com fibras de algodão.

Não ficavam arredondadas como as bolas Pelé.

Objeto de desejo de todos meninos da vila.

As bolas de meia não aguentavam os chutes desassossegados.

Logo se estraçalhavam nos campinhos de terra.

Sem calçado para proteger os pés.

Sobrava nos meninos pedaços de unhas arrancadas.

Dedão do pé sangrando o vermelhão de dentro de si.

Acontecia quando a bola era o alvo.

Mas as pedras se ofereciam primeiro.

Os jogos contra aconteciam no final do dia.

Entre o sol se despedindo do sertão.

E a noite chegando.

As partidas só davam um fim.

Quando a bola já não servia.

Ou a noite chegava com o seu manto preto.

Ela amedrontava as crianças.

As histórias de lobisomem, caipora, almas penadas.

Afastavam as crianças dos terreiros das casas de taipa.

Quando as mães gritavam:

Entre pra dentro menino!

Vem pegar tua comida!

Ela tá no prato!

Hora do fim do jogo mais esperado pelas crianças.

Encher a barriga.

E ir depressa pra rede sonhar com um novo dia de estripulia.

Imagem Google.

 

terça-feira, 9 de junho de 2026

Memórias de Um Menino Descalço - Bicicleta

 Memórias de Um Menino Descalço


No tempo D’eu Menino Tinha A Bicicleta.


Nela pedalava pernas de criança aprendiz.
Os pneus eram impulsionados por curtas pernas.
Rodava nos caminhos estreitos sem direção.
Por dentro do quadro da monark ajeitava uma das pernas.
A direita.
A esquerda dava suporte na força para impulsionar os pedais.
Bicicleta grande, de adulto, não respeitava o menino.
Jogava-o ao chão sem cerimônia.
Sua força nos pedais vinha da vontade de aprender.
Ser livre pedalando a magrela.

Era ser livre como pássaros no arvoredo.

Mais dias, menos dias.
Entre erros e acertos.
O menino ganhava segurança para alçar novos voos.
Subir na magrela e pedalar sentado no ferro do quadro.
A monark deslizava nas estradas.
Levava o menino para viagens sem hora para voltar.
Nem lembrava da fome que o deixava fraco de tanto esforço.
Subir as ladeiras das estradas do sertão.
O fazia esquecer da vida dura que a família levava.

Foto google

sábado, 6 de junho de 2026

Memórias de Um Menino Descalço - Vestimenta

Memórias de Um Menino Descalço

VESTIMENTA
Meu calção era costurado à mão.
Todos viam os pontos largos da linha grossa de algodão.
Mãinha bordava a pobreza com a resistência de quem precisava cuidar.
As linhas nasciam das fibras rústicas recém-colhidas na vastidão das grotas.
Tinham a cor das nuvens do céu do meu sertão.
De período em período negavam água à nossa gente.
Mãinha segurava o fuso pelos pés.
Girava e girava sentada à sombra do oitão da casa de taipa.
A sombra era desenhada pelo sol que baixava no horizonte.
O tucho de algodão virava linha.
Ela entrava pelo buraco da agulha.
Como era promessa do divino.
Os pobres entrarem no reino do céu.
Vestia todos meninos da casa assim.
Costurando os rústicos tecidos com a mão.
Cada traço deixava sua marca no pano de saco de açúcar.
Eram um monte de irmãos soltos no campo ressequido.
Em torno da tapera de taipa parada no tempo.
Nela vivia uma grande família com dificuldade para se alimentar.
Vestir as crianças era a última ação.
Os rendimentos financeiros da grande família.
Era endereçado pra comida.
Havia muita boca de crianças chorando nos cantos do terreiro.
Puxavam a saia de mãinha querendo suas tetas recaídas.
Com escasso leite...
...E colo.
Foto google.

 

sábado, 30 de maio de 2026

Memórias de Um Menino Descalço - Descalço

                              DE PÉS NO CHÃO

Andava descalço no tempo de menino.


A terra seca recebia seus pés sem reclamar.

Quem reclamava era ELE.

Ai, mamãe pisei numa pedra!

Gritava...

Sua mãe seguia na frente carregando uma trouxa de roupa na cabeça.

O menino vinha atrás pisando no caminho gemendo de dor.

Cuidado menino!

Mãe, tá doendo!

Olha por onde pisa!

Tô olhando, mamãe, mas as pedras não largam do caminho.

O caminho era estreito.

Foi traçado há muito anos.

Por pés de moradores e animais que vivem naquele cantinho de sertão.

Dos dois lados do caminho a mata seca não lhe assustava.

O menino já tinha se acostumado com ela.

O que o encantava era o canto da passarada.

Saltavam de galho em galho no arvoredo sem vida.

Era tempo de seca.

Mamãe, me espera!

Anda logo menino!

Tô indo...

Entre o canto dos passarinhos, mata seca, pedra e poeira.

O menino seguia sua mãe entregue a inocência de ser criança.

 

 

 

 

sexta-feira, 22 de maio de 2026

QUER MEU BEIJO...?


 

Quer Meu Beijo...?


Quero te arrebatar num beijo.

Levar-te as alturas.
Quero gravar meu beijo na tua face aguda.

Na tua boca carnuda.

Fazer teu sangue bombear-se às alturas.
Beijo pegando fogo ofereço.

Numa fria noite de descanso depois de um dia de luta.
Meu beijo vai dilapidar a máquina automática ansiosa que carregas dentro de ti.
Meu beijo será de fera enjaulada, faminta por carne humana.
Tua carne é o doce sabor da minha fome selvagem.
Meu beijo não vai ser de anjo, de santo, meu beijo vai ser de bicho criado nas veredas sertanejas. Diacho!
Te visitará em todas partes com a língua afiada, sedenta por tua saliva fresca.
Vai te rasgar a velha pele, te cobrir de nova, serás outra mulher, quase criança.
Meu beijo abrirá tuas asas, as fará voar como uma ave de rapina, faminta por emoção, em busca de novos bichos-amantes.
Cada beijo teu me doado, anos ganhará teu corpo em vida.
Teus beijos passarão a ser a droga da minha euforia.

Como os meus beijos serão da tua alegria.
Vou pular de cabeça nos teus beijos, nadar de braçada nas águas turbulentas deles.
Serás outra mulher.

Eu, outro homem.
Vou mergulhar na tua doce saliva, virar peixe do teu doce lago que balançará desadormecido.
No novo rio que nascerá do meu beijo na tua cama macia.

De uma margem a outra estarei presente nadando sempre. 

Vou te amparar num beijo ardente quando começar cair da cachoeira jorrando gozos pelos poros.
Meus beijos te salvarão de entrar em depressão.

Te salvarão de se jogar na frente d’uma Kombi corujinha.
Quanto mais ousado me oferecer o teu beijo, mais demorados serão os meus com a boca ardente.
Beijos como os meus, quem os receber, como você, sairá do lugar comum.
Se encontrará olhando no espelho dizendo pra si.
Nossa!

Num é que o homem é um Dom Juan!

 

 

 

 

 

 

 

 

terça-feira, 19 de maio de 2026

PULEM O MURO...

 


 Pulem o Muro...

Qualquer hora dessas, meus chegados.

O muro da incompreensão.

E caiam de pau no cangote dos leões.

Eles têm fome de vossas carnes.

Não se espantem quando der na teia.

Que estão necessitados de conviver ao lado deles.

Primeiro, inventem diversas máscaras.

São excelentes para cada dia ter uma para recebê-los.

Outra coisa importante.

Ficar ligado para lidar com eles:

Nunca deixar a unha encravada, aparada.

É bom sempre mantê-la comprida.

Pra quando precisar usar tê-la afiada.

Beber o sangue do inimigo numa taça de prata.

Entalhada.

É o que vocês precisam.

Fica ligados quando eles vierem para sangrá-los a jugular.

Na solidão da madrugada.

Seria bom pra quem se sente rejeitado.

Saber entrar na luta e deixar de ser otário.

Entendam que toda nossa descendência.

Faz parte de uma classe sem dinheiro no banco.

Deveras, é bom que fiquemos rebelados.

Pra essa ideia ser logo empregada.

A taça de prata já deve estar separada do seu lado.

Tenham pressa, amigos.

O inimigo anda ganhando força.

Atuem antes que o sol se esconda no horizonte.

E alague seu ódio de amor.

Aqueles que criaram tesouros encantados.

Com o seu suor espalhado pelo lombo.

Juntaram grandes fortunas.

Com o nosso pobre dinheiro ganhado muito suado.

 

 

quinta-feira, 14 de maio de 2026

MORTE CONSELHEIRA

 

Morte Conselheira 



Outro dia me peguei caminhando no sentido contrário.

Pra onde ia.

Doido pra não chegar.

A Morte me surgiu como amiga.

Desviou-me do caminho que me matava todo dia.

Doou sua bondade me direcionando para outras bandas.

Ficamos amigas.

Dizia ela que não me queria pra morar no seu reino.

Por hora. 

Ora!

Inclusive me aconselhou a pegar novos rumos.

Se sentir forte.

Aprender mais e mais pra ter o que contar às gerações futuras.

A Morte prometeu que estava disposta a me esquecer por longos anos.

Até chegar a velhice.

Mas sem ser daquela que apieda as pessoas e dá muita faina a família.

A Morte recomendou que eu usasse o cérebro e o físico.

Como faz desde que nasceu lá pra’s bandas das terras do sertão.

Não parasse de estudar filosofia, sociologia.

Muita história pra desvendar as artimanhas humanas.

Tinha muita gente à minha frente para ir atrás com sua foice amolada.

Disse a morte.

Uns caras que negavam pão a quem tinha fome.

Disse a morte.

Agasalho a quem tinha frio.

Disse a morte.

Tipo de gente que recebia o vento úmido da noite soprando farpas.

Uns truculentos desumanizados radicais preparados para matar os diferentes.

Essas coisas que os cidadãos de bem nas suas individualidades...

Querem que o miserável deixe de ser próximo.

E vá procurar sua turma no lixo que eles produzem.

Amigo, Zé. Disse a Morte.

Siga seu caminho sem desviar de suas intenções.

Não se esqueça de estender a mão a quem precisa.

Gente fina essa amiga Morte.

 


quinta-feira, 7 de maio de 2026

 



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TEXTO EM PROSIA - MEUS TOMBOS

 

Meus Tombos 

Uma vez ou outra ando tomando pancada.

Nem sempre lançado ao acaso por imprudência própria.

Fico sem coragem de devolver ao mesmo modo esses empurrões.

Uns tapas de mão aberta me ferem o sobrolho.

Um murro de mão fechada me acerta a nuca.

Um pontapé de MMA desloca meu joelho.

Cabeçada quando bate no peito joga-me ao chão.

Fico todo inchado, de corpo doído, alma condoída.

A voz trava, os sentidos lógicos se esvaem.

Viajo nas nuvens espaças sem enredo pra segurar a minha queda.

Quando dou por mim fui engolido pelo inimigo voraz.

Usa a língua e os membros aquecidos pra lançar-me chamas.

E chamuscar mina áurea opaca de nordestino travesso.

Sempre ligeiro nas suas artimanhas o inimigo, estúpido nos atos.

Ignorante nos fatos, levado à austeridade.

Comprometido com a usurpação.

Não tenho páreo para rebater aos trancos o inimigo monstro.

Tou sempre na defensiva sem saber atacar ou defender.

Se fosse covarde o acertaria pelas costas.

O levaria a dar cambalhotas tortas caídos tremulando no chão.

Na hora que tivesse maltratando outras pessoas.

Por mim, tudo bem. E não. Sei que sou duro pra resistir a trancos intensos.

Se agisse dessa forma ficaria remoçando a vida toda.

Ora. Não tive lições exponenciais.

Daquela que a criança toma da família na formação.

Quando o ensinam a ser o primeiro pra não fracassar.

Chegue antes de todos, seja esperto, moleque!

A vantagem fará de você um vencedor diante os perdedores.

Tomar bordoada, lapada, se sacrificar sem cobrar.

Servir sem ser servido não é prêmio que eu quero esconder.

E que vem apenas pra mim.

Muitos como EU escondem por dentro da carcaça humilde os fracassos.

Vou pra cima da dor como se fosse prazer, Raskólnikov.

E dane-se!

Não compreendi como odiar.

No mar que navego quase sempre a maré tá alta.

Pra atravessá-la aja braçada.

E quando chego à areia,

Lá está outro que conseguiu.

Chegou primeiro e comeu o que me serviria de abrigo e labor.

Isso é o que dá.

Não ter a malícia pra viver numa sociedade de muitas facetas.