sexta-feira, 12 de junho de 2026

Memórias de Um Menino Descalço - A Lua

 

Memórias de Um Menino Descalço

A LUA

Tinham noites que o menino admirava a Lua Cheia.

Na solidão esperava um beijo na face entristecida.

Ela enchia seus pensamentos de sonhos impossíveis.

Viajar na cauda de um foguete e pousar no coração de São Jorge.

Era o pensamento que envolvia o menino desamparado na solidão do mato.

Os sonhos se multiplicavam na sua cabeça.

Quando a Lua refletia como uma bola no céu da sua infância.

Pincelada com cores negras e prateadas.

Ou alaranjadas.

Iluminava os campos e as serras.

A casa de taipa onde o menino morava.

Era cercada de pobreza.

Viajar pra um lugar distante.

Já ocupava a sua cabeça.

As noites do sertão.

Fora do tempo das bem-vindas chuvas.

Nunca negou a Lua iluminando seus caminhos desfigurados.

Nas noites sem ela.

Era um só breu.

O medo fazia o menino ficar na rede.

Ela balançava ao toque dos pés na parede próxima.

Para o menino andar ao redor de casa quando o sol sumia.

Só quando a Lua Cheia dava as caras.

Imagem Google.

Memórias de Um Menino Descalço - Jogos de Bila

 

Memórias de Um Menino Descalço

Os Jogos de Bila

Jogar bila nos dias sem chuva. 

Oh gostusura!

Na rua de terra.

Na pracinha das brincadeiras de pernas soltas e pensamentos livres.

Divertido era pra quem ficava com os bolsos cheios.

De tristeza ressentida para quem saía com os bolsos vazios.

No formato de triângulo eram os buracos cavados.

Com algum instrumento.

Como faca, canivete, pedaço de pau. Entusiasmo.

Cada bolinha de gude grudada no dedo polegar.

Apertada no dedo de apontar.

Viajava em direção a outra com velocidade divertida.

Acertar a bola de gude do opositor era o desejo.

O menino gostava dessa vadiagem inocente.

De brincar com os colegas.

Apostava na certeza de perder ou ganhar.

O barulho das pancadas na bolinha do adversário.

Trazia a certeza da paz.

Da vitória.

Ela se consagrava quando a bolinha caía no buraco escolhido para se recolher.

Cada matada na bolinha de vidro.

Fazia o menino sentir-se dominado pelo prazer do jogo.

As partidas só acabavam quando o perdedor arregava.

Estava ficando sem as bolinhas que tanto gostava.

Era nessa hora que arrumava desculpas para abandonar o jogo.

Dizia: preciso ajudar mãinha!

O jogo não acabava.

Outros meninos estavam na fila pra novas disputas.

Imagem Google.


 

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Memórias de Um Menino Descalço - Bolas de Meia

 

Memórias de Um Menino Descalço

As Bolas de Meia

As meias eram preenchidas com fibras de algodão.

Não ficavam arredondadas como as bolas Pelé.

Objeto de desejo de todos meninos da vila.

As bolas de meia não aguentavam os chutes desassossegados.

Logo se estraçalhavam nos campinhos de terra.

Sem calçado para proteger os pés.

Sobrava nos meninos pedaços de unhas arrancadas.

Dedão do pé sangrando o vermelhão de dentro de si.

Acontecia quando a bola era o alvo.

Mas as pedras se ofereciam primeiro.

Os jogos contra aconteciam no final do dia.

Entre o sol se despedindo do sertão.

E a noite chegando.

As partidas só davam um fim.

Quando a bola já não servia.

Ou a noite chegava com o seu manto preto.

Ela amedrontava as crianças.

As histórias de lobisomem, caipora, almas penadas.

Afastavam as crianças dos terreiros das casas de taipa.

Quando as mães gritavam:

Entre pra dentro menino!

Vem pegar tua comida!

Ela tá no prato!

Hora do fim do jogo mais esperado pelas crianças.

Encher a barriga.

E ir depressa pra rede sonhar com um novo dia de estripulia.

Imagem Google.

 

terça-feira, 9 de junho de 2026

Memórias de Um Menino Descalço - Bicicleta

 Memórias de Um Menino Descalço


No tempo D’eu Menino Tinha A Bicicleta.


Nela pedalava pernas de criança aprendiz.
Os pneus eram impulsionados por curtas pernas.
Rodava nos caminhos estreitos sem direção.
Por dentro do quadro da monark ajeitava uma das pernas.
A direita.
A esquerda dava suporte na força para impulsionar os pedais.
Bicicleta grande, de adulto, não respeitava o menino.
Jogava-o ao chão sem cerimônia.
Sua força nos pedais vinha da vontade de aprender.
Ser livre pedalando a magrela.

Era ser livre como pássaros no arvoredo.

Mais dias, menos dias.
Entre erros e acertos.
O menino ganhava segurança para alçar novos voos.
Subir na magrela e pedalar sentado no ferro do quadro.
A monark deslizava nas estradas.
Levava o menino para viagens sem hora para voltar.
Nem lembrava da fome que o deixava fraco de tanto esforço.
Subir as ladeiras das estradas do sertão.
O fazia esquecer da vida dura que a família levava.

Foto google