Memórias de Um Menino Sertanejo
As Bolas de Meia
As meias eram preenchidas com fibras de algodão.
Não ficavam arredondadas como as bolas Pelé.
Objeto de desejo de todos meninos da vila.
As bolas de meia não aguentavam os chutes desassossegados.
Logo se estraçalhavam nos campinhos de terra.
Sem calçado para proteger os pés.
Sobrava nos meninos pedaços de unhas arrancadas.
Dedão do pé sangrando o vermelhão de dentro de si.
Acontecia quando a bola era o alvo.
Mas as pedras se ofereciam primeiro.
Os jogos contra aconteciam no final do dia.
Entre o sol se despedindo do sertão.
E a noite chegando.
As partidas só davam um fim.
Quando a bola já não servia.
Ou a noite chegava com o seu manto preto.
Ela amedrontava as crianças.
As histórias de lobisomem, caipora, almas penadas.
Afastavam as crianças dos terreiros das casas de
taipa.
Quando as mães gritavam:
entre pra dentro menino!
Vem pegar tua comida!
Ela tá no prato!
Hora do fim do jogo mais esperado pelas crianças.
Encher a barriga.
E ir depressa pra rede sonhar com um novo dia de
estripulia.
Imagem Google.
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