sábado, 30 de maio de 2026

AQUI TEM HISTÓRIA

AQUI TEM HISTÓRIA

Andava descalço no tempo d’eu menino.
A terra seca recebia meus pés sem reclamar.

Quem reclamava era EU.

Ai, mamãe pisei numa pedra!
Gritava...
Mamãe seguia na frente carregando uma trouxa de roupa na cabeça.
Eu vinha atrás deixando o caminho para trás.
Cuidado menino!
Mãe, tá doendo!
Olha por onde pisa!
Tô olhando, mamãe, mas as pedras não largam do caminho.
O caminho era estreito.
Foi traçado por pés dos moradores que moravam naquele deserto de sertão.
Dos dois lados do caminho a mata seca não me assustava.
Eu já tinha me acostumado com ela.
O que me encantava era o canto da passarada.
Saltavam de galho em galho no arvoredo sem vida.
Era tempo de seca.
Mamãe, me espera!
Anda logo menino!
Tô indo...
Entre o canto dos passarinhos, mata seca, pedra e poeira, eu seguia minha mãe entregue a inocência de ser criança.

 

 

 

 

sexta-feira, 22 de maio de 2026

QUER MEU BEIJO...?


 

Quer Meu Beijo...?


Quero te arrebatar num beijo.

Levar-te as alturas.
Quero gravar meu beijo na tua face aguda.

Na tua boca carnuda.

Fazer teu sangue bombear-se às alturas.
Beijo pegando fogo ofereço.

Numa fria noite de descanso depois de um dia de luta.
Meu beijo vai dilapidar a máquina automática ansiosa que carregas dentro de ti.
Meu beijo será de fera enjaulada, faminta por carne humana.
Tua carne é o doce sabor da minha fome selvagem.
Meu beijo não vai ser de anjo, de santo, meu beijo vai ser de bicho criado nas veredas sertanejas. Diacho!
Te visitará em todas partes com a língua afiada, sedenta por tua saliva fresca.
Vai te rasgar a velha pele, te cobrir de nova, serás outra mulher, quase criança.
Meu beijo abrirá tuas asas, as fará voar como uma ave de rapina, faminta por emoção, em busca de novos bichos-amantes.
Cada beijo teu me doado, anos ganhará teu corpo em vida.
Teus beijos passarão a ser a droga da minha euforia.

Como os meus beijos serão da tua alegria.
Vou pular de cabeça nos teus beijos, nadar de braçada nas águas turbulentas deles.
Serás outra mulher.

Eu, outro homem.
Vou mergulhar na tua doce saliva, virar peixe do teu doce lago que balançará desadormecido.
No novo rio que nascerá do meu beijo na tua cama macia.

De uma margem a outra estarei presente nadando sempre. 

Vou te amparar num beijo ardente quando começar cair da cachoeira jorrando gozos pelos poros.
Meus beijos te salvarão de entrar em depressão.

Te salvarão de se jogar na frente d’uma Kombi corujinha.
Quanto mais ousado me oferecer o teu beijo, mais demorados serão os meus com a boca ardente.
Beijos como os meus, quem os receber, como você, sairá do lugar comum.
Se encontrará olhando no espelho dizendo pra si.
Nossa!

Num é que o homem é um Dom Juan!

 

 

 

 

 

 

 

 

terça-feira, 19 de maio de 2026

PULEM O MURO...

 


 Pulem o Muro...

Qualquer hora dessas, meus chegados.

O muro da incompreensão.

E caiam de pau no cangote dos leões.

Eles têm fome de vossas carnes.

Não se espantem quando der na teia.

Que estão necessitados de conviver ao lado deles.

Primeiro, inventem diversas máscaras.

São excelentes para cada dia ter uma para recebê-los.

Outra coisa importante.

Ficar ligado para lidar com eles:

Nunca deixar a unha encravada, aparada.

É bom sempre mantê-la comprida.

Pra quando precisar usar tê-la afiada.

Beber o sangue do inimigo numa taça de prata.

Entalhada.

É o que vocês precisam.

Fica ligados quando eles vierem para sangrá-los a jugular.

Na solidão da madrugada.

Seria bom pra quem se sente rejeitado.

Saber entrar na luta e deixar de ser otário.

Entendam que toda nossa descendência.

Faz parte de uma classe sem dinheiro no banco.

Deveras, é bom que fiquemos rebelados.

Pra essa ideia ser logo empregada.

A taça de prata já deve estar separada do seu lado.

Tenham pressa, amigos.

O inimigo anda ganhando força.

Atuem antes que o sol se esconda no horizonte.

E alague seu ódio de amor.

Aqueles que criaram tesouros encantados.

Com o seu suor espalhado pelo lombo.

Juntaram grandes fortunas.

Com o nosso pobre dinheiro ganhado muito suado.

 

 

quinta-feira, 14 de maio de 2026

MORTE CONSELHEIRA

 

Morte Conselheira 



Outro dia me peguei caminhando no sentido contrário.

Pra onde ia.

Doido pra não chegar.

A Morte me surgiu como amiga.

Desviou-me do caminho que me matava todo dia.

Doou sua bondade me direcionando para outras bandas.

Ficamos amigas.

Dizia ela que não me queria pra morar no seu reino.

Por hora. 

Ora!

Inclusive me aconselhou a pegar novos rumos.

Se sentir forte.

Aprender mais e mais pra ter o que contar às gerações futuras.

A Morte prometeu que estava disposta a me esquecer por longos anos.

Até chegar a velhice.

Mas sem ser daquela que apieda as pessoas e dá muita faina a família.

A Morte recomendou que eu usasse o cérebro e o físico.

Como faz desde que nasceu lá pra’s bandas das terras do sertão.

Não parasse de estudar filosofia, sociologia.

Muita história pra desvendar as artimanhas humanas.

Tinha muita gente à minha frente para ir atrás com sua foice amolada.

Disse a morte.

Uns caras que negavam pão a quem tinha fome.

Disse a morte.

Agasalho a quem tinha frio.

Disse a morte.

Tipo de gente que recebia o vento úmido da noite soprando farpas.

Uns truculentos desumanizados radicais preparados para matar os diferentes.

Essas coisas que os cidadãos de bem nas suas individualidades...

Querem que o miserável deixe de ser próximo.

E vá procurar sua turma no lixo que eles produzem.

Amigo, Zé. Disse a Morte.

Siga seu caminho sem desviar de suas intenções.

Não se esqueça de estender a mão a quem precisa.

Gente fina essa amiga Morte.

 


quinta-feira, 7 de maio de 2026

 



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TEXTO EM PROSIA - MEUS TOMBOS

 

Meus Tombos 

Uma vez ou outra ando tomando pancada.

Nem sempre lançado ao acaso por imprudência própria.

Fico sem coragem de devolver ao mesmo modo esses empurrões.

Uns tapas de mão aberta me ferem o sobrolho.

Um murro de mão fechada me acerta a nuca.

Um pontapé de MMA desloca meu joelho.

Cabeçada quando bate no peito joga-me ao chão.

Fico todo inchado, de corpo doído, alma condoída.

A voz trava, os sentidos lógicos se esvaem.

Viajo nas nuvens espaças sem enredo pra segurar a minha queda.

Quando dou por mim fui engolido pelo inimigo voraz.

Usa a língua e os membros aquecidos pra lançar-me chamas.

E chamuscar mina áurea opaca de nordestino travesso.

Sempre ligeiro nas suas artimanhas o inimigo, estúpido nos atos.

Ignorante nos fatos, levado à austeridade.

Comprometido com a usurpação.

Não tenho páreo para rebater aos trancos o inimigo monstro.

Tou sempre na defensiva sem saber atacar ou defender.

Se fosse covarde o acertaria pelas costas.

O levaria a dar cambalhotas tortas caídos tremulando no chão.

Na hora que tivesse maltratando outras pessoas.

Por mim, tudo bem. E não. Sei que sou duro pra resistir a trancos intensos.

Se agisse dessa forma ficaria remoçando a vida toda.

Ora. Não tive lições exponenciais.

Daquela que a criança toma da família na formação.

Quando o ensinam a ser o primeiro pra não fracassar.

Chegue antes de todos, seja esperto, moleque!

A vantagem fará de você um vencedor diante os perdedores.

Tomar bordoada, lapada, se sacrificar sem cobrar.

Servir sem ser servido não é prêmio que eu quero esconder.

E que vem apenas pra mim.

Muitos como EU escondem por dentro da carcaça humilde os fracassos.

Vou pra cima da dor como se fosse prazer, Raskólnikov.

E dane-se!

Não compreendi como odiar.

No mar que navego quase sempre a maré tá alta.

Pra atravessá-la aja braçada.

E quando chego à areia,

Lá está outro que conseguiu.

Chegou primeiro e comeu o que me serviria de abrigo e labor.

Isso é o que dá.

Não ter a malícia pra viver numa sociedade de muitas facetas.

 

 

 

 

 

 

 

segunda-feira, 30 de março de 2026


 AQUI TEM HISTPRIA

Na minha família, entenda, irmãos, existem dois José Marques Sarmento. O primeiro sou EU, José Marques Sarmento. Tive que ser registrado como José, por ter nascido no dia 19 de março, dia de São José. Se não recebesse o nome do santo padroeiro do agricultor sertanejo, uma desgraça poderia ocorrer com o menino.

 O segundo é meu irmão, José Marques Sarmento, 2 anos mais novo do que eu.

Na verdade, ele era pra se chamar José Carlos Marques Sarmento. Nome pomposo para o sertão daquela época antes da vidara para a década de 1960.Eu nasci em 1957, ele em 1959.

História um tanto engraçada, ao mesmo tempo triste.

Digo, meu pai Antônio Aurélio Marques Sarmento, analfabeto geral e irrestrito, daqueles que nem sabia escrever o nome, assinava com o dedão polegar os documentos, esqueceu de pôr o Carlos no nome geral do filho 05, no momento do registro no cartório da cidade de Sousa.

Meu pai, antes de chegar ao cartório caminhando por uma rua do centro da cidade de Sousa, passou em frente a um bar, não pensou duas vezes: vou tomar uma talagada antes, pra tirar as inhacas do dia. Ao resolver molhar a garganta, não se contentou apenas com uma lapada de cana daquela que derruba o guarda, foi logo três, uma atrás da outra, sem tira-gosto de torresmo, carne seca ou sarapatel.

Era homem fraco pra beber o velho Antônio, trabalhava no pesado e não se alimentava nos conformes para quem tinha como instrumentos de trabalho nos campos irrigados do perímetro de São Gonçalo, enxadas, pás, picaretas, machados, foices, era um pau pra toda obra nas mãos dos encarregados e engenheiros agrícolas do DNOCS.

De frente para a mulher que atendeu, ela pergunta, seu Antônio, como se chamará seu filho que vai ser registrado.

José...

José de?

José...Marques Sarmento

Simplesmente meu pai Antônio esqueceu o Carlos no nome do meu irmão.

Até hoje convivemos como homônimos na mesma família, tendo como diferença, o dia de nascimento, o mês, o ano e os registros de RG e CPF.

No mais, somos iguais, inclusive na cor da pele, somos os pardos da família que puxou a mãe cabocla sertaneja Francisca, que teve a maioria dos filhos branco, por parte do meu pai.

Meu irmão hoje em dia é aposentado como agricultor, eu, como sonhador.