sexta-feira, 26 de junho de 2026

CORTE TUDO

Corte tudo que quiser desse Zé Mané!

Entenda, não vou ceder sem reclamar!

Não sou otário de não lutar pelos meus direitos.

Te dou meus braços pra decepar. 

Beleza?

Mas a dor maior é saber que vou ficar sem os abraços dos chegados.

Com cotocos não damos socos.

Corte minhas pernas.

Sei que vou deixar de correr em busca do sol do meu horizonte.

Vou deixar de caminhar em busca das cores da aurora boreal do meu viver.

Corte meu falo!

Sei que vou sentir muito ao dizer pro meu amor que: JÁ ERA!

Aquela transa que fervia ao vê-la tão bela despida sem pudor.

JÁ ERA!

Corte meu cabelo, minhas tranças em branca ascensão.

Minha carequice...

Digo!

É resquício da minha luta pra não morrer pelo tédio da acomodação.

Meu pescoço?

Te dou o pescoço pra você cortar!

Se for bonzinho...Só torcer!

Curtinho, sim!

De nordestino que carregou balaios de gatos azunhando.

Me deixe as veias que se ligam ao meu coração.

Meu cérebro precisa de irrigação.

Corte tudo que for meu!

O cartão de crédito, o emprego.

Me desaloje de casa, queime meus bens.

Meus livros não, desgraça!

Só peço uma coisa que você nem imagina qual seja:

O poder de continuar a sonhar!

O poder de ter um cérebro para criar novas rotas no imaginar.

 

 

 

 

sexta-feira, 12 de junho de 2026

Memórias de Um Menino Sertanejo - A Lua

 

Memórias de Um Menino Sertanejo

A LUA

Tinham noites que o menino admirava a Lua Cheia.

Ela enchia seus pensamentos de sonhos.

Viajar na cauda de um foguete e pousar nela,

Era o pensamento que envolvia o menino.

Os sonhos se multiplicavam na sua cabeça,

Quando a Lua refletia como uma bola no céu da sua infância.

Pincelada com cores negras e prateadas,

Ou alaranjadas.

A Lua iluminava os campos e as serras.

A casa de taipa onde o menino morava,

Era cercada de pobreza.

Sonhar viajar pra lugar distante,

Já ocupava a sua cabeça.

As noites do sertão, fora do tempo das chuvas,

Nunca negou a Lua iluminando seus caminhos.

Nas noites sem ela.

Era um só breu.

O medo fazia o menino ficar na rede.

Ela balançava ao toque dos pés na parede próxima.

Andar ao redor da casa,

Só quando a Lua Cheia dava as caras.

Imagem Google.

Memórias de Um Menino Sertanejo - Jogos de Bila

 

Memórias de Um Menino Sertanejo

Os Jogos de Bila

Jogar bila nos dias sem chuva.

Na rua de terra, na pracinha da paz.

Era divertido para quem ficava com os bolsos cheios.

De tristeza ressentida para quem saía com os bolsos vazios.

No formato de triângulo eram os buracos cavados.

Com algum instrumento, como faca, canivete, pedaço de pau.

Cada bolinha de gude grudada no dedo polegar

Apertada no dedo de apontar

Viajava em direção a outra com velocidade divertida.

Acertar a bila do inimigo era o desejo.

O menino gostava dessa vadiagem inocente.

De brincar com os colegas, apostando na certeza de perder ou ganhar.

O barulho das pancadas na bolinha do adversário

Trazia a certeza da paz.

Da vitória.

Ela se consagrava quando a bolinha caía no buraco escolhido para se recolher.

Cada matada de bola

Fazia o menino sentir-se dominado pelo prazer do jogo.

As partidas só acabavam quando o perdedor arregava.

Estava ficando sem as bolinhas que tanto gostava.

Era nessa hora que arrumava confusão para deixar o jogo.

Dizia: Tenho que ir pra casa ajudar mãinha!

O jogo não acabava.

Outros meninos se apresentavam para novas disputas.

Imagem Google.


 

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Memórias de Um Menino Sertanejo - Bolas de Meia

 

Memórias de Um Menino Sertanejo

As Bolas de Meia

As meias eram preenchidas com fibras de algodão.

Não ficavam arredondadas como as bolas Pelé.

Objeto de desejo de todos meninos da vila.

As bolas de meia não aguentavam os chutes desassossegados.

Logo se estraçalhavam nos campinhos de terra.

Sem calçado para proteger os pés.

Sobrava nos meninos pedaços de unhas arrancadas.

Dedão do pé sangrando o vermelhão de dentro de si.

Acontecia quando a bola era o alvo.

Mas as pedras se ofereciam primeiro.

Os jogos contra aconteciam no final do dia.

Entre o sol se despedindo do sertão.

E a noite chegando.

As partidas só davam um fim.

Quando a bola já não servia.

Ou a noite chegava com o seu manto preto.

Ela amedrontava as crianças.

As histórias de lobisomem, caipora, almas penadas.

Afastavam as crianças dos terreiros das casas de taipa.

Quando as mães gritavam:

Entre pra dentro menino!

Vem pegar tua comida!

Ela tá no prato!

Hora do fim do jogo mais esperado pelas crianças.

Encher a barriga.

E ir depressa pra rede sonhar com um novo dia de estripulia.

Imagem Google.

 

terça-feira, 9 de junho de 2026

Memórias de Um Menino Sertanejo - Bicicleta

 Memórias de Um Menino Sertanejo


No tempo D’eu Menino Tinha A Bicicleta.


Nela pedalava pernas de criança aprendiz.
Os pneus eram impulsionados por curtas pernas.
Rodava nos caminhos estreitos sem direção.
Por dentro do quadro da monark ajeitava uma das pernas.
A direita.
A esquerda dava suporte na força para impulsionar os pedais.
Bicicleta grande, de adulto, não respeitava o menino.
Jogava-o ao chão sem cerimônia.
Sua força nos pedais vinha da vontade de aprender.
Ser livre pedalando a magrela.

Era ser livre como pássaros no arvoredo.

Mais dias, menos dias.
Entre erros e acertos.
O menino ganhava segurança para alçar novos voos.
Subir na magrela e pedalar sentado no ferro do quadro.
A monark deslizava nas estradas.
Levava o menino para viagens sem hora para voltar.
Nem lembrava da fome que o deixava fraco de tanto esforço.
Subir as ladeiras das estradas do sertão.
O fazia esquecer da vida dura que a família levava.

Foto google

sábado, 6 de junho de 2026

Memórias de Um Menino Sertanejo - Vestimenta

Memórias de Um Menino Sertanejo

VESTIMENTA
Meu calção era costurado à mão.
Todos viam os pontos largos da linha grossa de algodão.
Mãinha bordava a pobreza com a resistência de quem precisava cuidar.
As linhas nasciam das fibras rústicas recém-colhidas na vastidão das grotas.
Tinham a cor das nuvens do céu do meu sertão.
De período em período negavam água à nossa gente.
Mãinha segurava o fuso pelos pés.
Girava e girava sentada à sombra do oitão da casa de taipa.
A sombra era desenhada pelo sol que baixava no horizonte.
O tucho de algodão virava linha.
Ela entrava pelo buraco da agulha.
Como era promessa do divino.
Os pobres entrarem no reino do céu.
Vestia todos meninos da casa assim.
Costurando os rústicos tecidos com a mão.
Cada traço deixava sua marca no pano de saco de açúcar.
Eram um monte de irmãos soltos no campo ressequido.
Em torno da tapera de taipa parada no tempo.
Nela vivia uma grande família com dificuldade para se alimentar.
Vestir as crianças era a última ação.
Os rendimentos financeiros da grande família.
Era endereçado pra comida.
Havia muita boca de crianças chorando nos cantos do terreiro.
Puxavam a saia de mãinha querendo suas tetas recaídas.
Com escasso leite...
...E colo.
Foto google.

 

sábado, 30 de maio de 2026

Memórias de Um Menino Sertanejo - Descalço

O MENINO DE PÉS NO CHÃO

Andava descalço no tempo d’eu menino.
A terra seca recebia meus pés sem reclamar.

Quem reclamava era EU.

Ai, mamãe pisei numa pedra!
Gritava...
Mamãe seguia na frente carregando uma trouxa de roupa na cabeça.
Eu vinha atrás deixando o caminho para trás gemendo de dor.
Cuidado menino!
Mãe, tá doendo!
Olha por onde pisa!
Tô olhando, mamãe, mas as pedras não largam do caminho.
O caminho era estreito.
Foi traçado por pés dos moradores que moravam naquele deserto de sertão.
Dos dois lados do caminho a mata seca não me assustava.
Eu já tinha me acostumado com ela.
O que me encantava era o canto da passarada.
Saltavam de galho em galho no arvoredo sem vida.
Era tempo de seca.
Mamãe, me espera!
Anda logo menino!
Tô indo...
Entre o canto dos passarinhos, mata seca, pedra e poeira, eu seguia minha mãe entregue a inocência de ser criança.