José Sarmento Em ProSia
Aqui tem tudo junto e misturado na criação da escrita:prosa, crônica, conto, prosia. Fotos.
quinta-feira, 7 de maio de 2026
TEXTO EM PROSIA
Meus Tombos
Uma vez ou outra ando tomando pancada,
Sem ser lançado ao acaso por imprudência própria.
Fico sem coragem de devolver ao mesmo modo esses
empurrões.
Uns tapas de mão aberta me ferem o sobrolho.
Um murro de mão fechada me acerta a nuca.
Um pontapé de MMA desloca meu joelho.
Cabeçada quando bate no peito joga-me ao chão.
Fico todo inchado, de corpo doído, alma condoída.
A voz trava, os sentidos lógicos se esvaem.
Viajo nas nuvens espaças sem enredo pra segurar
minha queda.
Quando dou por mim fui engolido pelo inimigo voraz.
Usa a língua e os membros aquecidos pra lançar-me
chamas,
E chamuscar mina áurea opaca.
Sempre ligeiro nas suas artimanhas, estúpido nos
atos,
Ignorante nos fatos, levado à austeridade,
Comprometido com a usurpação.
Não tenho páreo para rebater aos trancos desse
inimigo monstro.
Tou sempre na defensiva sem saber atacar ou
defender.
Se fosse covarde o acertaria pelas costas,
O levando a dar cambalhotas tortas,
Na hora que tivesse maltratando outrem.
Pois que, por mim, sei que sou duro pra resistir a
trancos violentos.
Se agisse dessa forma ficaria remoçando a vida
toda.
Não tive lições exponenciais,
Daquela que a criança toma da família na formação.
Quando o ensinam a ser o primeiro pra não
fracassar.
Chegue antes de todos, seja esperto, moleque!
A vantagem fará de você um vencedor, um político.
Tomar bordoada, lapada, se sacrificar sem cobrar,
Servir sem ser servido não é prêmio que quero
esconder,
E que vem apenas pra mim.
Muitos como EU escondem por dentro da carcaça
humilde.
Vou pra cima da dor como se fosse prazer.
E dane-se!
Não compreendi como odiar.
No mar que navego quase sempre a maré tá alta.
Pra atravessá-la aja braçada.
E quando chego à areia,
Lá está outro que conseguiu.
Chegou primeiro e comeu o que me serviria de abrigo
e labor.
Isso é o que dá,
Não ter a malícia pra viver numa sociedade de
muitas facetas.
segunda-feira, 30 de março de 2026
AQUI TEM HISTPRIA
Na minha família, entenda, irmãos, existem dois José Marques
Sarmento. O primeiro sou EU, José Marques Sarmento. Tive que ser registrado
como José, por ter nascido no dia 19 de março, dia de São José. Se não
recebesse o nome do santo padroeiro do agricultor sertanejo, uma desgraça
poderia ocorrer com o menino.
O segundo é meu irmão,
José Marques Sarmento, 2 anos mais novo do que eu.
Na verdade, ele era pra se chamar José Carlos Marques Sarmento.
Nome pomposo para o sertão daquela época antes da vidara para a década de
1960.Eu nasci em 1957, ele em 1959.
História um tanto engraçada, ao mesmo tempo triste.
Digo, meu pai Antônio Aurélio Marques Sarmento, analfabeto
geral e irrestrito, daqueles que nem sabia escrever o nome, assinava com o
dedão polegar os documentos, esqueceu de pôr o Carlos no nome geral do filho 05,
no momento do registro no cartório da cidade de Sousa.
Meu pai, antes de chegar ao cartório caminhando por uma rua
do centro da cidade de Sousa, passou em frente a um bar, não pensou duas vezes:
vou tomar uma talagada antes, pra tirar as inhacas do dia. Ao resolver molhar a
garganta, não se contentou apenas com uma lapada de cana daquela que derruba o
guarda, foi logo três, uma atrás da outra, sem tira-gosto de torresmo, carne
seca ou sarapatel.
Era homem fraco pra beber o velho Antônio, trabalhava no
pesado e não se alimentava nos conformes para quem tinha como instrumentos de
trabalho nos campos irrigados do perímetro de São Gonçalo, enxadas, pás,
picaretas, machados, foices, era um pau pra toda obra nas mãos dos encarregados
e engenheiros agrícolas do DNOCS.
De frente para a mulher que atendeu, ela pergunta, seu Antônio,
como se chamará seu filho que vai ser registrado.
José...
José de?
José...Marques Sarmento
Simplesmente meu pai Antônio esqueceu o Carlos no nome do
meu irmão.
Até hoje convivemos como homônimos na mesma família, tendo
como diferença, o dia de nascimento, o mês, o ano e os registros de RG e CPF.
No mais, somos iguais, inclusive na cor da pele, somos os
pardos da família que puxou a mãe cabocla sertaneja Francisca, que teve a maioria dos filhos branco, por parte do meu pai.
Meu irmão hoje em dia é aposentado como agricultor, eu, como
sonhador.
sexta-feira, 16 de janeiro de 2026
TÁ OSSO
Meus ossos de uma hora pra outra pegaram rebelar-se com minha
presença sempre exigindo deles mais esforço pra chegar em algum lugar de
difícil alcance.
Nas corridas malucas pra perder peso uma hora empacou, me fizeram
estancar de supetão por se amolecer por entre as minhas carnes e dizer pra que
eu não saísse do lugar. Castigo pra um coroa que se acha menino e não quer vê
no tempo um parceiro que exaure.
Ralhou: isso não é vida companheiro de luta, irmão das mesmas
angústias. Somos sangue do mesmo sangue, filhos do mesmo DNA, temos que entrar
num acordo, preciso ser cuidado com mais zelo pra durar igual pode durar toda
estrutura mole do teu corpo.
Noutras corridas pra chegar primeiro nas oportunidades que
apareciam, meus ossos também se fizeram amolecer. Se revoltaram.
De uns tempos pra cá anda me avisando: segure a onde meu
irmão, somos do mesmo corpo, da mesma estrutura, regados pelo mesmo sangue, o
que você engole, a me chega pelos teus excessos.
Meus
ossos querem me fazer retrair na corrida pra se colocar para tentar coisas boas
que a vida tem pra dar de alguns anos pra cá.
Toda vez que meus ossos acham que excedo para o plantio de
algum feito que acho razoável, pra me colocar perante a sociedade, eles me
deixam no chão sem poder levantar.
Quando estou ávido para chegar correndo feito um tantã em
algum lugar, muitas vezes meus ossos dizem que esqueço de que ter uma vida saudável
é melhor, pois, com o tempo, outros elementos que formam o corpo humano, que
participam dos mesmos eventos, logo estarão pedindo arrego.
Quando ocorre de se revoltar, meus ossos acabam amolecendo,
se tornando uma espécie de borracha que não quebra quando enverga, mas me
retira às forças para que meu corpo não chegue aonde quero, nem a mente fique
alegre.
Nessas ocasiões acabo ficando puto com os meus ossos, quando
me ponho se arrastar no lugar que me
encontro clamando a eles que tornem endurecer, foi pra isso que os milhares de
séculos existiram, pra formar o ser humano como é hoje, com ossos obedientes e
equilibrados para sustentação das outras partes do corpo.
Diz: não, meu irmão, tou agindo com você desse modo pra
segurar sua onde, sua loucura de querer estar em todo lugar se desgastando de
forma a me deixar com menos tempo de vida. Sou tua parte mais dura como
elemento de sustentação do teu corpo, mas não sou dono da sua mente, de seus
desejos, por causa disso, uso da artimanha e do poder que tenho, que pra mim é
sabedoria, de te segurar, quando eu passo a ficar mole nas tuas junções e armadura esquelética.
Se ficando mole, levando você a cair e se arrastar, não consigo lhe deixar
parado por muito, imagine se não usasse dessa arte de amolecer. Sou ossos
sábios. Entendi com o tempo que só amolecendo por dentro pra lhe fazer entender que tem hora
que as paradas às reflexões são necessárias, com isso consigo te parar por fora,
te estancar em algum canto do teu ser desobediente, que tá sempre querendo
bater no vento que sopra contra ti.
Acho que meus ossos têm muito ciúme das minhas correrias e
buscas e sonhos e realizações. Quer me fazer um João Bobo, uma marionete, Zé
ninguém, tem ciúme das noitadas franqueadas quando estou de caso amoroso com alguém
que ele não acha bacana ou não vai com a cara. Acho que meus ossos acham que
quem tem que gozar são eles. Até já se meteram com o meu pau, dizendo a ele que
fizesse e agisse como eles agem, amolecesse também nas horas que não comungasse
das mesmas idéias e desejos, nas horas das felicidades estremadas. Essas
situações na vida das pessoas são um pecado pra vida que se quer levar até os
noventa anos, dizem eles. Apesar do meu pau não ter osso, uma vez ou outra quer
acompanhar as ideais dos meus ossos. Parece um pau sem caráter, vai pela
conversa dos outros, mesmo sabendo que mais tarde pagará alto preço pelas
bobagens que faz.
Tem uma coisa estranha na minha relação com os meus ossos. Parece
que eles não me querem ver feliz. Quando rio, já sinto por dentro do corpo uma
comichão, são meus ossos agindo pra me fazer retrair e se tornar mais comedido.
Outro dia estava eu com os amigos farreando, quando na hora do desfecho do prazer
inigualável, me fez arriar e ficar estatelado sem poder sair do lugar. Tudo
amoleceu. Meus amigos ficaram sem saber o que fazer, foi quando tive que
acalmá-los, dizendo que com os meus ossos eu me entendia. Daí a pouco fiquei
triste, foi quando voltou a endurecer, mais daí a farra acabou, perdi a graça e
a calma, senti vontade de pegar uma furadeira, uma serra copo, esmerilhadeira,
moto serra e cortar meus ossos em pedaços minúsculos pra nunca mais fazer feio
quando das minhas alegrias.
Como grande parte dos elementos do meu corpo também é mole, e
ser meus ossos que formam a minha estrutura firme feito rocha, nessas horas
fico sem ter como me movimentar. Acabo comedindo pra que eles revoguem a greve
que fazem pra com a minha pessoa quando está feliz.
Acho meus ossos muito invejosos de mim. Por que sou uma
pessoa solta, sem vínculo psicótico com nada, sem apego, livre, leve e solto no
pasto feito um potro em busca de ração que lhe aqueça o estomago e a alegria
sobre uma fêmea. Inveja é uma pedra que se atira na direção de quem não se
gosta, mas quem recebe não sabe de que direção partiu, isto é, quando não se
conhece quem é o invejoso, mas no caso dos meus ossos, não, eu os conheço,
afinal nascemos juntos, somos do mesmo espaço, ocupamos a mesma estrutura, movimentamos
no mesmo conjunto pra todo lado, não tinham porque ter inveja de mim, já que aonde
vou, os levo.
Em varias situações meus ossos me deixam nervoso, é quando se
acham sabichões, e eu o bobão, se acham o Doutor Honoris Causa da sabedoria do
equilíbrio da saúde física. Enche o saco: para de beber álcool, toma cálcio,
come tal fruta com tal letra, você quer que eu morra antes de você pra ficar por
aí gandaiando pelas noites poéticas, se empantufando de proteína animal, criando
calo na barriga, desgastando os órgãos internos ingerindo o que não presta como
alimento. Respeita Zé! Sou teu e você é meu!
.jpg)