Casa humilde abraçada por serra gigante para eu menino, era refúgio para uma família com muitas crianças querendo mimo de braços de adultos e comida no prato para saciar a fome. Uma escadinha no tamanho dos moleques, apontava a cada dois anos um óvulo fecundado. Havia fervor no prazer de se amarem abraçados na quentura das noites sertanejas.... O catre pocilga de vara de marmeleiro amparava colchão de palha de junco, sempre pronto para receber corpos se unindo para fazer novos filhos. Meu eu menino tem em memória a pobreza, muitas vezes base movediça para motivo de lágrimas no rosto de minha mãe que chorava escondida dos filhos em algum canto mal-cheiroso. De um cantinho de solidão via minha mãe roer restos de unhas carcomidas pela aspereza do sabão, ao retirar fedor de mijo de trapos da grande família. Quantidade de filhos colocados no mundo sem pensar nas conseqüências de como criá-los, não levava a fábrica fechar a linha de produção. Mesmo vivenciando cotidianamente quão difícil cuidar de tantos filhos, continuava a...
- Veja mais em https://www.uol.com.br/ecoa/colunas/contem-historias/2019/12/22/no-tempo-deu-menino-um-retrato-sobre-o-porque-da-migracao.htm?cmpid=copiaecola
Aqui tem tudo junto e misturado na criação da escrita:prosa, crônica, conto, prosia. Fotos.
quarta-feira, 13 de maio de 2020
sábado, 9 de maio de 2020
AQUI TEM HISTÓRIA - ESTUDOS
AQUI TEM HISTÓRIA - DE ESTUDOS E PESQUISA
Num domingo à tardinha de Fevereiro do ano de 2008,
estava na sala da minha casa zapiando na TV comercial entre Faustão e Gugu,
para ver quem mais adquiria audiência
com as narrativas escabrosas produzidas por uma sociedade tencionada por
poder econômico a qualquer custo. Estava
tomando uma cachaça e brejas.Do sofá dei um pulo pra cima da TV e
gritei: Amanhã vou voltar a estudar.A família se assustou (surtou?) não entendendo
onde eu queria chegar com aquele despertar. No outro dia fui até a E.E
Presidente Kennedy no bairro do Campo Limpo, procurar saber sobre a modalidade
de ensino EJA.Tiro e queda. Tem documento aí. Tenho.Tome.Preencha essa ficha.
Ok.Assinado. Combinado. Começa tal dia, Senhor José. Obrigado. Por nada. Fui
pra sala de aula no dia marcado. Já tinha 4 livros publicados, aparecido na ilustrada da folha de São Paulo como “escritor de quatro livros
permanece inédito em vendas”, ou “a vida do escritor dá força as suas palavras”
com 3 estrelas para o livro URBANÒIDES, Um Caos Paulistano, matéria do Marcelo
Rubens Paiva.Um ano e meio depois tou eu
assinando uma folha na mesma escola e retirando o certificado do Ensino Médio...E
aí Zé?Era pergunta de mim pra mim. Sempre me fiz perguntas, sempre me
cobrei.Não vai ser o primeiro de oito filhos a ter um curso superior.O Enem tá logo
aí, mano veio, se inscreve, meu.Me dei um beliscão.Experimenta.Me dei um pé na
bunda como sinônimo de empurrão e me inscrevi. Fui bem na nota de corte.Levou-me
para o curso de história.Era o que eu queria. Sempre gostei muito de pesquisa.
Juntar ficção e realidade é pra mim, criar e estudar. Três anos depois fui
graduado/licenciado e com essa pegada de voltar à sala de aula, depois dos 50
anos, hj sou todo contentamento quando me deparo com turmas da EJA e CIEJA e
turmas do fundamental e médio contando histórias que não é para boi dormir nem
da carochinha, e meter poesia social nos ouvidos de alunos, no projeto,”todo
aluno de escola pública merece um escritor periférico no pé dou ouvido”. É nóiz
na luta periferia. Vc não pode desistir dos seus sonhos. Eja, Cieja táí, volta estudar marrento!
quinta-feira, 7 de maio de 2020
ÓDIO ÓHDIO HÓDIO! FOME FOME FOME!!!
ÓDIO ÓHDIO HÓDIO!
FOME FOME FOME!!!
Minha
caminhada já me distanciou bastante do começo.
Estou mais
próximo do FIM pela idade que hoje carrego no esqueleto.
Logo estarei
caindo no despenhadeiro sem poder retornar como assim ocorreu a Prometeu.
Lá ficarei eternamente
sem na lápide algum epitáfio que chame atenção de alguém que perdeu ente
querido e vaga no cemitério atrás de sua alma perdida.
Quando
morrer, sumirei das vistas de quem me quis por perto por algum tempo da
existência.
Quem me quis
distante nem pra um bom dia, me adiantou desobediência.
Ando
cambaleante. Não por excesso de peso nas costas, nem o caso de bebida destilada
desorientar o corpo/cérebro.
Dissabores cáusticos me deixam severo por
esses dias nebulosos.
Do tipo... aprisionamento
com tempo pra Ilações, dissabores, horrores.
Por um lado,
ando cheio de gente com poder de subornar inteligências, pagando minúsculos
cálculos matemáticos nas suas ações diárias.
Essa gente
alimenta ratazanas que andam doidas por víveres além do necessário.
Por outro
lado gente muito entendida sem poder de reação, é alimentada por retrocessos
embustidos.
Usam de
subterfúgios das falácias sem ação concreta para lidar com reacionários. Com
essa gente, aconselho. Só na mão.
Ficamos nós
no meio. Os pobres. OS POETAS.
Sem bola
cheia para chutar na meta certa, às vezes, só as de meia furada.
Nem Fazer o
gol do campeonato que nunca ganhamos.
Ódio Óhdio
Hódio! É o que todos escutam.
Por esse
tempo de incertezas.
Nem a pureza
do ar sereno saberá lidar com as discórdias.
A maioria se
vangloria cantando de galo do poleiro.
Sinto o tempo
insuflado com o isolamento social.
Não sabemos
nada de futuro.
Onde vamos
encontrar o prato que aproximará à boca da colher cheia, e a fará salivar de
prazer em engolir um bom bocado?
Por dias de
fome. Ódio Óhdio Hódio! FOME!
Nossa gente
das beiradas. Indisciplinada. FOME! ÓCIO!
Não tem tempo bom para morrer feliz. FOME!
Morre tortos
todo dia um tantinho. Até o céu ou o inferno dizer.
Em disputa
mais que hercúlea.
Você é meu.
Não! Ele é
meu.
Os dois com
cara de Ódio Óhdio Hódio!
Disputam
para que lado do inconsciente coletivo vai levar o fresco cadáver que em vida
viveu de eternas incertezas e morreu de:FOME FOME FOME ÓDIO ÓHDIO HÓDIO!!!
quarta-feira, 6 de maio de 2020
ÓBITO ÓHBITO HÓBITO
ÓBITO ÓHBITO
HÓBITO
Uma agonia
sentir angustiado.
As imagens
me fazem angustiado.
As audições
me fazem angustiado.
As
necessidades me fazem angustiado.
O dia segue angustiado.
Óbito óbito
óbito!
A noite
chega e continuo angustiado.
Óbito,
óbito, óbito!
Ah, esse
isolamento sem distanciamento.
Tudo por ver
e ouvir sobre a morte que não largo a foice. Óbito!
Anda de dia
e de noite obitando pessoas.
Em todo
mundo. Óbito óbito óbito!
Quem mais
estava pela hora da morte são os que mais caem. Óbito!
Sorrateira
ela anda por vias escuras, estreitas.
Não importa
não. Iluminadas. Largas. Qualquer hora em todo lugar. Óbito!
A vigilância
da cidade está cuidando de outros assuntos. Macabros!
As pessoas
estão em seus aposentos. Pavor. Óbito!
Presas em si
mesmas com medo de dá de cara com espirros de óbito.
Todas angustiadas.
Acham que serão a próxima vitima.
A morte por
esses dias anda com cara de mau. Impiedosa.
Mascarada
pelo ódio ou pelo amor de tirar uma vida que já não existe.
Ou que
existirá muito.
Ela impõe
medo. Óbito!
Sabe todos
que estão trancados em suas casas que é hora de vigilância.
Hora de
limpar as mãos como nunca.
Até mãos que já esganaram mulheres estão em
vigilância.
Até mãos que
manusearam dinheiro sujo estão em vigilância.
Em luta com
o sabão. Óbito!
Nos
hospitais e casas de repouso a morte está mais presente. Apetitosa. Por óbito!
Ela ama
estar nesses lugares.
Com calma
ela vai prolongando a agonia do doente.
Então chega
uma hora que desfecha sua foice. Óbito!
Dá muitas
gargalhadas vendo um amontoado de paciente entubado.
A maioria
que não tem como entubar. Ela leva primeiro. Óbito
Geralmente
aqueles doentes pobres, das franjas da cidade. Óbito!
Esses não
são contabilizados como morto infectado.
Ah, foi o
coração fígado falta de ar nos pulmões. Óbito!
Cadê as
máquinas! Grita a multidão tirando reservas de ar dos peitos.
Cadê as
máquinas de ventilação para os doentes pobres?
Vai morrer
mais da minha gente do que da gente outra.
Agentes de
saúde não dão conta de tanta gente na fila para cuidar.
Escolher quem
vai morrer é um dilema que angustia.
A
granfinagem tem de onde tirar e a quem cuidar.
Ah, essa
angustia que não me larga nem na hora de profundo sono.
Haja
pesadelo...Haja óbito, óhbito, hóbito!
E desgoverno com chacota exorbitante e sem pranto.
quarta-feira, 29 de abril de 2020
AQUI TEM HISTÓRIA - A MÃE
AQUI TEM HISTÓRIA- MEMORIAL DA MINHA FINADA MÃE
Dos oito filhos que escaparam e viraram adultos, sou o quarto, e o mais parecido com minha mãe, Dona Francisca Marcelino Sarmento.
Trabalhou muito pra cuidar de 9 homens. Era a mulher de uma casa, nos invernos muito pobre, nas secas intermináveis miserável.
Vivíamos num tempo/espaço amparado por costumes machistas, imagine como não era.
Casou-se aos 17 anos. Meu pai Antônio com 42. Depois de viver
intensamente os colóquios, percalços, violências e estéticas sertanejas na
região de Sousa, Antônio achou que era hora de se encostar num canto e maneirar os
ditames de uma vida esmagada pelo latifúndio, cangaço, violência e seca.
Decidiu pedir a mão
de minha mãe em casamento.
O agricultor Antônio Marcelino, o futuro sogro, achou por bem
entregar a filha, antes que ele a roubasse e fugissem
num cavalo pangaré de casa numa noite de lua cheia branqueando a caatinga.
Afinal, eram primos, e nada há de mais seguro para o sertanejo, a certeza de dar uma filha menor em casamento a quem já o conhecia.
O noivo era pau pra toda obra e muito vivido na valente forma de montaria em amansar burro brabo, na briga de punhal e na segurança de disparar munição de rifle papo amarelo em cima de condenados a morte por desavenças de arrombo de cercas e roubo de gado.
De tão interessado no casamento, o sogro
emprestou, de pronto, pequeno pedaço de terra do seu lote à beira de um açude para o genro fazer sua roça de
coivara. Era preciso, ao se enlaçarem no padre e no cartório, o casal daqueles tempos possuir seu
canto para se amarem e fazer filhos a qualquer tempo nas noites de amor que
entregaria ao sertão muitos rebentos no futuro.
A tapera de taipa erguida pelo noivo Antônio no descampado, também recebeu mãos
febris e pés socando barro para encher o entrançado de varas e forquilhas por parte da família de minha mãe Francisca.
Um alpendre para receber cadeiras de balanço para se refrescar no calor sertanejo e acentos de toras de madeira davam segurança nas conversas de visitas, uma sala, dois quartos e uma pequena cozinha dariam as caras pela fumaceira produzida no estalar da lenha ainda verde cozinhar o básico.
Logo a casinha pequenina de taipa no alto de uma pirambeira recebeu o casal.
Num canto da sala alguns sacos de milho, feijão, um
pouco de arroz em casca, alimentos colhidos na roça pela chuva ter se segurado
por meses. Jerimum e mandioca não podiam faltar a terra produzir.
Uma cama de casal de vara da flora sertaneja, forrada com colchão de
junco começou se balançar no movimento do casal aprontando a chegada do primeiro
rebento.
Uma mesa e dois tamboretes, um pote, uns pratos de barro, uma quartinha para levar água para o roçado, duas redes para armar em qualquer cômodo, uns
panos para cobrir o corpo, umas plantinhas para produzir xaropes e florinhas em frente
a tapera foram suficiente para começar nova vida, e esperar o primeiro de muitos filhos.
Como naquela época dos anos de 1950 não tinha rádio, televisão nem jornal, a diversão para diminuir as preocupações com o futuro, era se amarem intensamente e imitar todos casais do sertão, fazer filhos até perderem o poder da reprodução.
Dez vieram ao mundo, oito escaparam, e cada vez que um nascia, coronéis do latifúndio pipocavam no ar muitos foguetes, pela certeza da continuada mão de obra barata para a manutenção das suas terras. Com o correr dos anos dos pós-guerra, São Paulo foi a saída pra fuga de rapazes marcados por costelas aparentes migrando para os grandes centros urbanos. Zézito foi um deles.
AQUI TEM HISTÓRIA - DE PESCADOR
AQUI TEM HISTÓRIA – DE PESCADOR
Às
sextas-feiras da paixão lembro minha mãe Francisca cobrando pescados do meu pai.
Antônio. Peixe, peixe, home! Num vê que é dia santo!
Fosse atrás
dos pescadores do açude que irrigava o vale de um verde que o embelezava nos
bons invernos.
Alguns homens
tiravam seus sustentos das águas calmas do açude. Deslizavam canoas com
movimentos de fortes braços, através de remos. Direcionavam-se aos lugares onde
podiam jogar tarrafas, galões e anzóis com as
manhãs frescas se descortinando para o calor. Por experiência, se direcionavam aos
lugares mais rasos, ou próximos as locas
de pedras em que a água não era tão fria. Lá os peixes achavam mais alimento,
como achavam eles as redes e anzóis dos experientes pescadores.
As fieiras nos cipós não recebiam apenas um tipo de peixe,
seguros pela goela. Tinha traíra, apanharí, piau, corimba, piranha,
tucunaré. Esse último peixe de cor amarelada listrado com preto era o mais
caro, por ser o mais procurado para descer por goelas famintas de trabalhadores que ganhavam melhor salário. A maciez da
carne sem espinhas desse peixe o fazia famoso, bem mais aqueles que tinham mais tempo para
ficar maiores. O hotel catete, restaurante chique da vila de funcionários
públicos do DNOCS, que já recebera presidentes como Getúlio Vargas e Lula,
adquiria, a bom preço, os peixes mais nobres e maiores. Para as casas dos
humildes trabalhadores do eito, sobravam os peixes que mais cuidados exigiam
para comer, as espinhas das suas entranhas acabavam engasgando os mais gulosos.
Aja farinha seca e murro nas costas para fazer o sujeito voltar a respirar. A
fé em Jesus também o salvava, sua imagem pregada na cruz era exemplo de resistência e lealdade para os humildes homens do campo.
segunda-feira, 27 de abril de 2020
AQUI TEM HISTÓRIA - VIVÊNCIAS
AQUI TEM HISTÓRIA
HOJE SOU OUTRO.
PORÉM NEM TANTO.
Fui criado numa
comunidade de funcionários públicos chamado "perímetro irrigado de São
Gonçalo", Sousa, PB. Região que acabou abrindo sorriso nalguns por ter
ganhado um grande açude, inaugurado em 1936 pelo então presidente Getúlio
Vargas. Irrigar o vale no meio do semi-árido sertanejo seria prioridade. A fome
não era adjetivo, era verbo e este verbo era conjugado pelo conjunto de forças
que, de tempos em tempos, se aprimoravam em dizimar o ser humano, empregado
pela natureza e os coronéis que escolhiam quem ganharia sobrevida cuidando de
suas terras como jagunços e cabras da peste. Hoje é conhecido como "Vale
dos Dinossauros". Era um meninote tão pobre que tinha vergonha de passar
pela rua 16, a principal da vila, na qual moravam os funcionários que ganhavam
melhores salários e se sentiam a classe dominante do lugar por, de certo modo,
poderem usufruir de um modismo do momento e se vestirem melhor e frequentarem
escolas, inclusive entrar em faculdades públicas e garantir emprego público
arranjado depois de formado pelas famílias que mandavam na administração
pública do Estado e do Nordeste. Quando maçons se arranjavam mais depressa, os religiosos batistas também. Demorei muito ao chegar em Sampa em 1977 pra
perder a vergonhas de ser pobre e enfrentar meus demônios interiores da
inferioridade, sem perder a humanidade e humildade. Até hoje ainda tenho
receios de entrar num shopping com as parafernálias da modernidade, cheios de
segurança e luzes e vidros e poder opressor econômico em que sinto enfiarem dentro de mim a lâmina pontuda da descrença da divisão do bolo que cresceu e
não foi repartido, por achar que vou ser parado para averiguação ou acompanhado
por um segurança vigilante nas minhas ações. Isto não é ficção, é fato!! A um tempo, ao entrar no shopping vila Olímpia para ver locação de um filme reclame, isto aconteceu, então só fui largado de ser seguido pelo conterrâneo segurança, depois que passei a cumprimentar profissionais da equipe do filme que íamos filmar numa loja de eletrônicos.
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