quarta-feira, 13 de maio de 2020

NO TEMPO D'EU MENINO - TEXTO PUBLICADO NO UOL

Casa humilde abraçada por serra gigante para eu menino, era refúgio para uma família com muitas crianças querendo mimo de braços de adultos e comida no prato para saciar a fome. Uma escadinha no tamanho dos moleques, apontava a cada dois anos um óvulo fecundado. Havia fervor no prazer de se amarem abraçados na quentura das noites sertanejas.... O catre pocilga de vara de marmeleiro amparava colchão de palha de junco, sempre pronto para receber corpos se unindo para fazer novos filhos. Meu eu menino tem em memória a pobreza, muitas vezes base movediça para motivo de lágrimas no rosto de minha mãe que chorava escondida dos filhos em algum canto mal-cheiroso. De um cantinho de solidão via minha mãe roer restos de unhas carcomidas pela aspereza do sabão, ao retirar fedor de mijo de trapos da grande família. Quantidade de filhos colocados no mundo sem pensar nas conseqüências de como criá-los, não levava a fábrica fechar a linha de produção. Mesmo vivenciando cotidianamente quão difícil cuidar de tantos filhos, continuava a... 






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sábado, 9 de maio de 2020

AQUI TEM HISTÓRIA - ESTUDOS


AQUI TEM HISTÓRIA - DE ESTUDOS E PESQUISA
Num domingo à tardinha de Fevereiro do ano de 2008, estava na sala da minha casa zapiando na TV comercial entre Faustão e Gugu, para ver quem mais adquiria audiência  com as narrativas escabrosas produzidas por uma sociedade tencionada por poder econômico a qualquer custo. Estava  tomando uma cachaça e brejas.Do sofá dei um pulo pra cima da TV e gritei: Amanhã vou voltar a estudar.A família se assustou (surtou?) não entendendo onde eu queria chegar com aquele despertar. No outro dia fui até a E.E Presidente Kennedy no bairro do Campo Limpo, procurar saber sobre a modalidade de ensino EJA.Tiro e queda. Tem documento aí. Tenho.Tome.Preencha essa ficha. Ok.Assinado. Combinado. Começa tal dia, Senhor José. Obrigado. Por nada. Fui pra sala de aula no dia marcado. Já tinha 4 livros publicados, aparecido na ilustrada da folha de São Paulo como “escritor de quatro livros permanece inédito em vendas”, ou “a vida do escritor dá força as suas palavras” com 3 estrelas para o livro URBANÒIDES, Um Caos Paulistano, matéria do Marcelo Rubens Paiva.Um ano  e meio depois tou eu assinando uma folha na mesma escola e retirando o certificado do Ensino Médio...E aí Zé?Era pergunta de mim pra mim. Sempre me fiz perguntas, sempre me cobrei.Não vai ser o primeiro de oito filhos a ter um curso superior.O Enem tá logo aí, mano veio, se inscreve, meu.Me dei um beliscão.Experimenta.Me dei um pé na bunda como sinônimo de empurrão e me inscrevi. Fui bem na nota de corte.Levou-me para o curso de história.Era o que eu queria. Sempre gostei muito de pesquisa. Juntar ficção e realidade é pra mim, criar e estudar. Três anos depois fui graduado/licenciado e com essa pegada de voltar à sala de aula, depois dos 50 anos, hj sou todo contentamento quando me deparo com turmas da EJA e CIEJA e turmas do fundamental e médio contando histórias que não é para boi dormir nem da carochinha, e meter poesia social nos ouvidos de alunos, no projeto,”todo aluno de escola pública merece um escritor periférico no pé dou ouvido”. É nóiz na luta periferia. Vc não pode desistir dos seus sonhos. Eja, Cieja táí, volta estudar marrento!

quinta-feira, 7 de maio de 2020

ÓDIO ÓHDIO HÓDIO! FOME FOME FOME!!!


ÓDIO ÓHDIO HÓDIO! FOME FOME FOME!!!
Minha caminhada já me distanciou bastante do começo.
Estou mais próximo do FIM pela idade que hoje carrego no esqueleto.
Logo estarei caindo no despenhadeiro sem poder retornar como assim ocorreu a Prometeu.
Lá ficarei eternamente sem na lápide algum epitáfio que chame atenção de alguém que perdeu ente querido e vaga no cemitério atrás de sua alma perdida.
Quando morrer, sumirei das vistas de quem me quis por perto por algum tempo da existência.
Quem me quis distante nem pra um bom dia, me adiantou desobediência.
Ando cambaleante. Não por excesso de peso nas costas, nem o caso de bebida destilada desorientar o corpo/cérebro.
 Dissabores cáusticos me deixam severo por esses dias nebulosos.
Do tipo... aprisionamento com tempo pra Ilações, dissabores, horrores.
Por um lado, ando cheio de gente com poder de subornar inteligências, pagando minúsculos cálculos matemáticos nas suas ações diárias.
Essa gente alimenta ratazanas que andam doidas por víveres além do necessário.
Por outro lado gente muito entendida sem poder de reação, é alimentada por retrocessos embustidos.
Usam de subterfúgios das falácias sem ação concreta para lidar com reacionários. Com essa gente, aconselho. Só na mão.
Ficamos nós no meio. Os pobres. OS POETAS.
Sem bola cheia para chutar na meta certa, às vezes, só as de meia furada.
Nem Fazer o gol do campeonato que nunca ganhamos.
Ódio Óhdio Hódio! É o que todos escutam.
Por esse tempo de incertezas.
Nem a pureza do ar sereno saberá lidar com as discórdias.
A maioria se vangloria cantando de galo do poleiro.
Sinto o tempo insuflado com o isolamento social.
Não sabemos nada de futuro.
Onde vamos encontrar o prato que aproximará à boca da colher cheia, e a fará salivar de prazer em engolir um bom bocado?
Por dias de fome. Ódio Óhdio Hódio! FOME!
Nossa gente das beiradas. Indisciplinada. FOME! ÓCIO!
 Não tem tempo bom para morrer feliz. FOME!
Morre tortos todo dia um tantinho. Até o céu ou o inferno dizer.
Em disputa mais que hercúlea.
Você é meu.
Não! Ele é meu.
Os dois com cara de Ódio Óhdio Hódio!
Disputam para que lado do inconsciente coletivo vai levar o fresco cadáver que em vida viveu de eternas incertezas e morreu de:FOME FOME FOME ÓDIO ÓHDIO HÓDIO!!!

quarta-feira, 6 de maio de 2020

ÓBITO ÓHBITO HÓBITO


ÓBITO ÓHBITO HÓBITO
Uma agonia sentir angustiado.
As imagens me fazem angustiado.
As audições me fazem angustiado.
As necessidades me fazem angustiado.
O dia segue angustiado.       
Óbito óbito óbito!
A noite chega e continuo angustiado.
Óbito, óbito, óbito!
Ah, esse isolamento sem distanciamento.
Tudo por ver e ouvir sobre a morte que não largo a foice. Óbito!
Anda de dia e de noite obitando pessoas.
Em todo mundo. Óbito óbito óbito!
Quem mais estava pela hora da morte são os que mais caem. Óbito!
Sorrateira ela anda por vias escuras, estreitas.
Não importa não. Iluminadas. Largas. Qualquer hora em todo lugar. Óbito!
A vigilância da cidade está cuidando de outros assuntos. Macabros!
As pessoas estão em seus aposentos. Pavor. Óbito!
Presas em si mesmas com medo de dá de cara com espirros de óbito.
Todas angustiadas. Acham que serão a próxima vitima.
A morte por esses dias anda com cara de mau. Impiedosa.
Mascarada pelo ódio ou pelo amor de tirar uma vida que já não existe.
Ou que existirá muito.
Ela impõe medo. Óbito!
Sabe todos que estão trancados em suas casas que é hora de vigilância.
Hora de limpar as mãos como nunca.
Até  mãos que já esganaram mulheres estão em vigilância.
Até mãos que manusearam dinheiro sujo estão em vigilância.
Em luta com o sabão. Óbito!
Nos hospitais e casas de repouso a morte está mais presente. Apetitosa. Por óbito!
Ela ama estar nesses lugares.
Com calma ela vai prolongando a agonia do doente.
Então chega uma hora que desfecha sua foice. Óbito!
Dá muitas gargalhadas vendo um amontoado de paciente entubado.
A maioria que não tem como entubar. Ela leva primeiro. Óbito
Geralmente aqueles doentes pobres, das franjas da cidade. Óbito!
Esses não são contabilizados como morto infectado.
Ah, foi o coração fígado falta de ar nos pulmões. Óbito!
Cadê as máquinas! Grita a multidão tirando reservas de ar dos peitos.
Cadê as máquinas de ventilação para os doentes pobres?
Vai morrer mais da minha gente do que da gente outra.
Agentes de saúde não dão conta de tanta gente na fila para cuidar.
Escolher quem  vai morrer é um dilema que angustia.
A granfinagem tem de onde tirar e a quem cuidar.
Ah, essa angustia que não me larga nem na hora de profundo sono.
Haja pesadelo...Haja óbito, óhbito, hóbito!
E desgoverno com chacota exorbitante e sem pranto.





quarta-feira, 29 de abril de 2020

AQUI TEM HISTÓRIA - A MÃE



AQUI TEM HISTÓRIA- MEMORIAL DA MINHA FINADA MÃE
Dos oito filhos que escaparam e viraram adultos, sou o quarto, e o mais parecido com minha mãe, Dona Francisca Marcelino Sarmento. 
Trabalhou muito pra cuidar de 9 homens. Era a mulher de uma casa, nos invernos muito pobre, nas secas intermináveis miserável. 
Vivíamos num tempo/espaço amparado por costumes machistas, imagine como não era. 
Casou-se aos 17 anos. Meu pai Antônio com 42. Depois de viver intensamente os colóquios, percalços, violências e estéticas sertanejas na região de Sousa, Antônio achou que era hora de se encostar num canto e maneirar os ditames de uma vida esmagada pelo latifúndio, cangaço, violência e seca. 
Decidiu pedir a mão de minha mãe em casamento. 
O agricultor Antônio Marcelino, o futuro sogro, achou por bem entregar a filha, antes que ele a roubasse e fugissem num cavalo pangaré de casa numa noite de lua cheia branqueando a caatinga. Afinal, eram primos, e nada há de mais seguro para o sertanejo, a certeza de dar uma filha menor em casamento a quem já o conhecia. 
O noivo era pau pra toda obra e muito vivido na valente forma de montaria em amansar burro brabo, na briga de punhal e na segurança de disparar munição de rifle papo amarelo em cima de condenados a morte por desavenças de arrombo de cercas e roubo de gado. 
De tão interessado no casamento, o sogro emprestou, de pronto, pequeno pedaço de terra do seu lote à beira de um açude para o genro fazer sua roça de coivara. Era preciso, ao se enlaçarem no padre e no cartório, o casal daqueles tempos possuir seu canto para se amarem e fazer filhos a qualquer tempo nas noites de amor que entregaria ao sertão muitos rebentos no futuro. 
A tapera de taipa erguida pelo noivo Antônio no descampado, também recebeu mãos febris e pés socando barro para encher o entrançado de varas e forquilhas por parte da família de minha mãe Francisca.
Um alpendre para receber cadeiras de balanço para se refrescar no calor sertanejo e acentos de toras de madeira davam segurança nas conversas de visitas, uma sala, dois quartos e uma pequena cozinha dariam as caras pela fumaceira produzida no estalar da lenha ainda verde cozinhar o básico. 
Logo a casinha pequenina de taipa no alto de uma pirambeira recebeu o casal. 
Num canto da sala alguns sacos de milho, feijão, um pouco de arroz em casca, alimentos colhidos na roça pela chuva ter se segurado por meses. Jerimum e mandioca não podiam faltar a terra produzir.
Uma cama de casal de vara da flora sertaneja, forrada com colchão de junco começou se balançar no movimento do casal aprontando a chegada do primeiro rebento. 
Uma mesa e dois tamboretes, um pote, uns pratos de barro, uma quartinha para levar água para o roçado, duas redes para armar em qualquer cômodo, uns panos para cobrir o corpo, umas plantinhas para produzir xaropes e florinhas em frente a tapera foram suficiente para começar nova vida, e esperar o primeiro de muitos filhos. 
Como naquela época dos anos de 1950 não tinha rádio, televisão nem jornal, a diversão para diminuir as preocupações com o futuro, era se amarem intensamente e imitar todos casais do sertão, fazer filhos até perderem o poder da reprodução. 
Dez vieram ao mundo, oito escaparam, e cada vez que um nascia, coronéis do latifúndio pipocavam no ar muitos foguetes, pela certeza da continuada mão de obra barata para a manutenção das suas terras. Com o correr dos anos dos pós-guerra, São Paulo foi a saída pra fuga de rapazes marcados por costelas aparentes migrando para os grandes centros urbanos. Zézito foi um deles. 

AQUI TEM HISTÓRIA - DE PESCADOR


AQUI TEM HISTÓRIA – DE PESCADOR
Às sextas-feiras da paixão lembro minha mãe Francisca cobrando pescados do meu pai. Antônio. Peixe, peixe, home! Num vê que é dia santo!
Fosse atrás dos pescadores do açude que irrigava o vale de um verde que o embelezava nos bons invernos.
Alguns homens tiravam seus sustentos das águas calmas do açude. Deslizavam canoas com movimentos de fortes braços, através de remos. Direcionavam-se aos lugares onde podiam jogar tarrafas, galões e anzóis com as manhãs frescas se descortinando para o calor. Por experiência, se direcionavam aos lugares  mais rasos, ou próximos as locas de pedras em que a água não era tão fria. Lá os peixes achavam mais alimento, como  achavam eles as redes e anzóis dos experientes pescadores.
As fieiras nos cipós não recebiam apenas um tipo de peixe, seguros pela goela. Tinha traíra, apanharí, piau, corimba, piranha, tucunaré. Esse último peixe de cor amarelada listrado com preto era o mais caro, por ser o mais procurado para descer por goelas famintas de trabalhadores que ganhavam melhor salário. A maciez da carne sem espinhas desse peixe o fazia famoso, bem mais aqueles que tinham mais tempo para ficar maiores. O hotel catete, restaurante chique da vila de funcionários públicos do DNOCS, que já recebera presidentes como Getúlio Vargas e Lula, adquiria, a bom preço, os peixes mais nobres e maiores. Para as casas dos humildes trabalhadores do eito, sobravam os peixes que mais cuidados exigiam para comer, as espinhas das suas entranhas acabavam engasgando os mais gulosos. Aja farinha seca e murro nas costas para fazer o sujeito voltar a respirar. A fé em Jesus também o salvava, sua imagem pregada na cruz era exemplo de resistência e lealdade para os humildes homens do campo.

segunda-feira, 27 de abril de 2020

AQUI TEM HISTÓRIA - VIVÊNCIAS


AQUI TEM HISTÓRIA
HOJE SOU OUTRO.
PORÉM NEM TANTO.
Fui criado numa comunidade de funcionários públicos chamado "perímetro irrigado de São Gonçalo", Sousa, PB. Região que acabou abrindo sorriso nalguns por ter ganhado um grande açude, inaugurado em 1936 pelo então presidente Getúlio Vargas. Irrigar o vale no meio do semi-árido sertanejo seria prioridade. A fome não era adjetivo, era verbo e este verbo era conjugado pelo conjunto de forças que, de tempos em tempos, se aprimoravam em dizimar o ser humano, empregado pela natureza e os coronéis que escolhiam quem ganharia sobrevida cuidando de suas terras como jagunços e cabras da peste. Hoje é conhecido como "Vale dos Dinossauros". Era um meninote tão pobre que tinha vergonha de passar pela rua 16, a principal da vila, na qual moravam os funcionários que ganhavam melhores salários e se sentiam a classe dominante do lugar por, de certo modo, poderem usufruir de um modismo do momento e se vestirem melhor e frequentarem escolas, inclusive entrar em faculdades públicas e garantir emprego público arranjado depois de formado pelas famílias que mandavam na administração pública do Estado e do Nordeste. Quando maçons se arranjavam mais depressa, os religiosos batistas também. Demorei muito ao chegar em Sampa em 1977 pra perder a vergonhas de ser pobre e enfrentar meus demônios interiores da inferioridade, sem perder a humanidade e humildade. Até hoje ainda tenho receios de entrar num shopping com as parafernálias da modernidade, cheios de segurança e luzes e vidros e poder opressor econômico em que sinto enfiarem dentro de mim a lâmina pontuda da descrença da divisão do bolo que cresceu e não foi repartido, por achar que vou ser parado para averiguação ou acompanhado por um segurança vigilante nas minhas ações. Isto não é ficção, é fato!! A um tempo, ao entrar no shopping vila Olímpia para ver locação de um filme reclame, isto aconteceu, então só fui largado de ser seguido pelo conterrâneo segurança, depois que passei a cumprimentar profissionais da equipe do filme que íamos filmar numa loja de eletrônicos.