quarta-feira, 17 de outubro de 2012

DIÁLOGO ANAL

Sonhei um dia desses
Meu ânus migrando de lugar no meu corpo.
De entre as nádegas, veio parar numa das mãos.
Não satisfeito em ficar nesta mão que escolheu
Correu para a outra.
Não gostou eu ter usado a que estava livre dele
Para tentar retirá-lo da que tinha se apossado.
Desta mão, brincando de gato e rato  
Eu era o gato, ele o rato
Foi parar no peito, imagine onde me caguei
Depois de um peido frouxo.
Noutro dia, migrando do peito foi parar num olho.
No banheiro, na hora de evacuar, senti um fedor dos diabos
Como vocês veem, meu olho fica do lado do nariz.
Até aí tudo bem, e tudo mal, o meu medo era o meu ânus ir parar na boca
Como ia comer se ele de lá não saísse
Se é pela boca que enfiamos pra dentro o que comemos
Se é pelo ânus que retiramos?
Xinguei, xinguei, mas não teve jeito.
Numa hora qualquer de um dia qualquer
Quando  certa pizza caiu mau no estomago
Acabou indo parar na boca o infeliz.
Gritei, chega cu desgraçado! Tou farto de você!
Saia do meu corpo em definitivo
Mim deixe estourar de tanto guardar merda,
Neste corpo de natureza humana, cu
Quem manda sou eu...e não um cagão igual você!
Meu cú é pessoa que não me compreende desde que nos relacionamos.
Falando isto, meu ânus nervoso foi parar na cabeça do meu pau
E aí eu perguntei, será que esse filho da puta é viado?
Dito isto, ele se tocou e voltou pro lugar de origem.
Acho que tem medo de levar porrada dos machos
que andam pela Av. Paulista.
Hoje tá no lugar certo, entre as minhas nádegas
Só servindo para cagar o que como com parcimônia.
Mim disse um dia desses
Se eu continuasse a comer desarvorado e sem educação
Iria se revoltar novamente e migrar para partes de mim que ficasse exposta
para todos verem que seria um cu em guerra com a minha pessoa.
Eu, por aprender a respeitá-lo, fazendo passar por ele excremento de bom adubo, por comer só quinhão que me satisfaz
Viramos amigos
Afinal somos unidos no mesmo corpo e filhos dos mesmos sentimentos humanitários.
Pra que brigar com alguém que a gente tanto precisa e quer por perto a qualquer hora
Principalmente nas horas de uma bela cagada na vida.
Zé Sarmento


quarta-feira, 10 de outubro de 2012

Dia do Nordestino-Homenagem ao Véio

Tenho lembranças do meu pai contando histórias de quando num tempo fora cabra, (jagunço) noutro da volante, mais tarde vaqueiro. Dizia que era uma forma de sobreviver no sertão de 1930.Levantava a camisa e mostrava as marcas de perfurações a bala e punhal e o dedo mindinho em riste por ter perdido o nervo, ao momento de segurar uma faca que ia para seu peito quando de uma paquera num forró. O homem era o bicho. Nunca vi sertanejo mais disposto a tudo como Antônio Aurélio Marques Sarmento. O homem era um dinossauro na força, na palavra segurava muita gente numa roda, picando fumo de rolo com sua faquinha que levava  na cintura acompanhado da branquinha que lhe soltava a língua e a mente. As palavras saiam ao seu modo, por ser analfabeto mas, os mínimos detalhes das histórias não deixava com reticências. Ou cabra meio mundo de homem. Era pau de dá em doido meu pai.São lembranças da infância de uma criança criada em meio à roda de sertanejos, tão fortes como descreveu Euclides da Cunha em os sertões: "o sertanejo é sobretudo um forte".Morreu aos oitenta e oito anos. Fiquei sabendo indo filmar. Estava na marginal indo para os estúdios da film planet na Barra Funda. Não pude ir dar o último adeus.Que pena! O tenho em memoria em vida, cheio de vida, mesmo com a vida dura que levava como operário do DNOCS e uma renca de filhos homens para criar. Ficou muito emocionado quando levei meus filhos para visitá-lo antes da morte, bem como o vi chorar quando me despedi para voltar pra esta selva chamada São Paulo. Lembro-me de que, quando bebia ficava valente, mas um valente mais para chamar atenção e dizer, "ninguém vai me segurar?" Não sei por que, eu  entendia que o velho tinha certo preconceito contra negro, porém tinha alguns como amigos para ir à caça nas noites das sextas-feiras ou sábados ou para farra. Chegava no outro dia com peba, tatu, gambá, até cobra de veado enrolada no pescoço, morta, e os cachorros farejando  caminhos. Picareta, pá, espingarda e facão pendurados no corpo de roupa imunda e aos fiapos. Esta é homenagem ao velho que deve tá em algum lugar do mundo dos mortos, se ao lado de deus ou do diabo, não sei, por ter tirado a vida de concorrentes nas tretas das trincheiras do sertão por ocasião do cangaço ao lado de Chico Pereira um tempo, ao lado da volante noutro.Era uma questão de vida ou morte, mas que faleceu, isto sem dúvida, e que viveu, sem dúvida, e está na minha lembrança e na minha gene, sem dúvida.
 Zé Sarmento



sexta-feira, 5 de outubro de 2012

quinta-feira, 4 de outubro de 2012

UMA CANTADA DOS INFERNOS

Vai um suflair, doutor?
Não. Obrigado!
Vai doutor, leva, é baratinho...
Não quero...
Não me diga que não tem uma moeda sobrando?
Tenho mais não é pro seu bico.
Pra gasolina?
Não!
Pagar cartão de crédito?
Não!
A conta do celular?
Não!
Aproveita. É só um real o chocolate.
Não quero!
Como é difícil tirar um real de uma pessoa.
Quer ganhar mais?
Como assim, doutor?
Entra no meu carro que te dou 100.
Pra fazer o que?
Varias coisas.
Como assim?
Topa fazer de tudo?
Tudo o que?
Tudo!
Mas tudo não diz nada.
Tou precisando de uma companhia.
Pra que, doutor?
Pra fazer umas coisas...
Que coisas?
Escute aqui, sei que você não é burra...
Não tou entendendo, doutor.
Quanto tempo você demora pra ganhar 100 pratas?
Uns 15 dias.
Não acha legal ganhar 100 em menos de duas horas?
Pra fazer o que?
Não se faça de desentendida bonitona...
Cê acha?
Depois de uma ducha no capricho.
Cê acha?
Sobre cama macia, vai valer mais de 100.
Pra fazer o que, doutor?
Eu quero sua “buceta” por 100 pilas, topa?
O doutor tá é doido!
Tou doido por você!
Eu sou virgem.
Pago dobrado!
Até tou precisando de dinheiro e de perder a virgindade. Sou motivo de gozação das amigas de escola.
Sua mãe não tá precisando de 200 contos?
Precisando tá.
Com 200 você vai ao mercado e enche a dispensa.
E o que digo pra mãe?
Que você achou o dinheiro. Você tem de tudo?
Não.
Então...
Doutor, os outros carros querem passar.
Deixa esses filhos da puta buzinar.
O doutor é doido.
Tou doido por você. Por esses seus olhos!
Vixe!
Por esses  peitos...
Isso é coisa feia, doutor.
Feio é você ficar aí nesse solão tentando ganhar 1 real.
Quem faz o que o doutor quer por dinheiro é puta.
Prostituição não é crime nem pecado. Crime é o que vc faz quase de graça. Com esse corpo, você vai viver bem melhor... e se for esperta ficar rica!
Tem um monte delas que fica rica, Dr?
Se tem...
Não tenho coragem, sou muito nova, tenho medo.
Digo pra você que não tira pedaço. Lavou tá novo!
E a alma, doutor, não fica escangalhada?
Fica se você não aceitar. Duvido que sua vida seja açucarada vendendo esses doces.
Não é doce, mas também não é amarga.
Se não é uma coisa nem outra, por que não muda pra ver se adoça um pouco mais?
Não sei...
É só entrar no carro e sua vida muda.
Como pode uma vida mudar por causa de 200 reais?
Isse é dinheiro de saída, moleca. Se você aceitar e der tudo certo, todo dia você pode ganhar até mil.
Mil, doutor?
Se for esperta até 1500.
1500?
Com esse corpo, bonita como é, e esses peitos e esses olhos, logo tá até pousando pra revista.
É verdade, doutor?
E não é...? É só contar dos seus desejos pra pessoa certa, que sou eu, que você vai voar alto.Vamo?
Não. Prefiro vender os doces.
Deixa de ser boba, entra logo. Você só vai sair ganhando.
Doutor, não me faça sonhar.
Não é proibido!
Pra pobre que nem eu, é.
Não é! É só você usar o que tem de melhor!
E o que eu tenho de melhor?
Seu corpo.Vende ele que você sai da pindaíba. Aproveita enquanto é nova!
Não sei...Posso falar com minha mãe...
Vai.
Tá bom...
Vai logo filha desalmada, entra logo naquele carro, não vê que é nossa salvação!...


sexta-feira, 21 de setembro de 2012

Texto publicado no portal cronopios

20/06/2007 13:05:00
A crise de valores na sociedade contemporânea




Por José Marques Sarmento

Reflexão de um cão vira-lata, preso na jaula dos cachorros finos


Refletindo cá comigo, no meu canto de ser só meu, bom tempo meu que ninguém mete a mão, tempo de escritor, diria, porque sem esse tempo que é só nosso não há criação.
 
Nele sou mais eu cá com minhas dúvidas, minhas angústias, minhas alegrias. Quem tiver tempo de sobra que divida com que tem tempo sobrando. No tempo que é meu, eu me acho como a água encontra o mar. Uma vez ou outra a água do tempo meu, de estar em sobras múltiplas comigo mesmo, pode ser revolta, mas me seguro e peço que não passe a quem tem tempo livre também, a ira dos endemoninhados, dos que não sabem viver entubados na UTI dos valores contemporâneos.
Digo isso, mesmo sem conhecer direito o aparato das personalidades da maior parte dos cidadãos (não sou psicólogo) que, a mim parecem, e só a mim parecem, ter a “persona” de uma espécie de Macunaíma, desencardidos uns, encardidos outros, que tiveram a possibilidade de se branquear por meio dos conhecimentos de causas e efeitos e, que, amparados nas leis vigentes, se acham os mais enfeitados da pintura descolorada da delinqüência para se amparar sobre os pilares que sustenta a laje movediça da crise de valores.

Ora, tempo livre meu, me leva às letras, a aglutinação irreverente delas, para definir as frases, os períodos longos, dando-me uma forma de expressão, sem judiar a retórica contemporânea, mas descer a borduna nos nefastos que acham que os valores se esfriaram, e para os alimentar por esse tempo, o fizeram ir parar nos fornos aquecidos a mil graus de calor e se derreteram.

(Resolvi escrever sobre o tema levando o leitor a refletir também. ?E não é pra isso que serve a escrita, desde aquela vindo das cabeças mais acentuadas no dístico que as distingue como pedra preciosa de lava bem formada, à aquela que encena como representante também de um segmento social menos sedento de sabedoria e que se formou da pedra bruta como eu?)

Pois bem, os valores não estão mais em crise de ser ou não ser, pelo visto. Os valores já se entrincheiraram na desordem, por escutar que, o jeito e a ordem são se dar bem, não importando os meios pelos quais querem levar vantagem. Em crise e, achando que tudo pode, acharam um meio de se enfeitar para redigir o panorama atual do povo brasileiro, desde aquele mais simples cidadão vestido de comum andando pelas ruas fazendo negócios escusos, a aqueles que se fardaram num passado para receber o diploma universitário.

O saco de forte fibra de sisal ou algodão que antes levava a disposição da multiplicação dos pães para a excentricidade do caráter nacional, não mais distribui  caráter único, não, duplicado por mil  e ensacado por sacola de plástico barato se encontra desde muito, aja visto que todos estão mergulhados na defesa da honra e da hora exata de se dar bem, à saber bem mais, em vista dos escândalos que se renova a cada dia mostrados pela mídia que os desensaca,  deixando a olhos nus, e distribui gratuitamente a quem quiser se informar dos valores em crise.

Foi-se o tempo, em hora tão adiantada nas informações, do homem se deixar minimizar pelo largo corredor do pregresso e não querer vivê-lo de forma intensa, possuindo aquilo que a indústria o põe às vistas e o cega de informação para tocar no produto e dizer: é ele que eu quero, é dele que preciso (mesmo sem precisar). Quero só pela forma de dizer que consegui, nem que seja por vias ilegais, mas eu preciso. Quero ser dono da usura, imperador da fortaleza que me cerca, quero ser o capanga que resguarda a suntuosa indústria psíquica interna que acho que devo possuir.

Assim não há quem queira caminhar pelas vias legais até o altar da cidadania plena, desde os bem informados, aos maus. Pelo menos um deslize, se não deu até agora, vai chegar a dar o cidadão de hoje para se compor da sabedoria e do poder de conseguir regurgitar pelos cantos da boca a baba da avareza.

São valores impetuosos perseguidos pelos colarinhos brancos/azul/anil, dizendo que ama o Brasil, mas que vão se divertir fora levando os malotes captados das repartições públicas. Numerários vastos adquiridos a vista de grossa e engenhosa corrupção.

Assim acontecendo, há o ensinamento para quem já aprendeu na graduação, chegando a fazer a pós, há o ensinamento a quem quer aprender fazendo o curso superior, há o ensinamento a quem não nasceu para aprender em poucos dias, por só ter feito o ensino médio, e haverá o ensinamento  a quem não vai aprender nunca, por ter ido só até o ensino fundamental então, por essa razão, se masturbam de subserviência suficiente para tentar mamar na teta daquele que se fez como homem dono do alheio. Esse é um dos piores na crise, porque se deixa levar por pouca prerrogativa e assistencialismo.

Todos, ou quase, estão e estarão à disposição de mudança de caráter e com as mãos coçando para se enturmar com quem tem o poder de demanda de fazer-lhe um cliente do desmando. (Sem esse aprendizado passado pelo mau-caratismo brasileiro, não há solução para o enriquecimento, para os louros da vitória e a participação na renda do tesouro nacional).

Visão caótica, sei que é essa, de ceticismo a dar com pau no cangote de um mal-feitor, mas não posso fugir para nenhum lugar do cantinho da mente sem que veja no cidadão atual, a acidez da crise cruel de ser ou não ser, vou ou não vou. Escuto a conversa no repouso que requer o meu ouvido, por todos os cantos imagino que seja essa a conversa, infelizmente da maioria. Vamos, cara, entrar nessa, tem tanta gente se dando bem. Vamo que vai dar certo. ...E se formos pegos? Esquece, com o que conseguirmos, compramos nossa liberdade, o nosso repousa estará garantido pelos seqüentes anos, e outra... nunca mais nos acharão sem estarmos com os cálculos da fuga engendrada. No máximo, por aqui, vamos puxar um mês, dois. Parece que não conhece o judiciário do nosso país, as delegacias distritais, a polícia. Parece que não conhece o homem atual, estudado, alfabetizado, formado em letras, em medicina, engenharia, administração, parece que não conhece o pedreiro, o padeiro, a parteira, todos precisam do papel que faz vislumbrar a quem estar vivo sonhar. Por dinheiro é tudo e nada mais!

Espero que me entendam, quem anda alegre ou entristecido com a crise de valores. Primeiro, nesse cara, tem que ir pondo com vaselina, mais a frente com cuspe, manteiga é muito cara, depois um cuspezinho não vai mal, cuspe é de graça, quase no final, será  apresentado a pasta ”nada”, isto é, temos que lhe por à cru, e no ”The End”, irá ser  recebido com um punhado de areia.

Cuidado cidadão moderno que quer se elevar de sabedoria para passar a perna naqueles coitados que vendem confete por aí em meio à folia de carnaval fora de hora para sobreviver, você merece ser “tarado” com despudor.