domingo, 18 de março de 2018

MARIELLE, MARIELLE


Difícil escrever, falar, poetizar sobre a morte trágica de uma pessoa jovem, forte, guerreira, parceira da boa vontade entre os homens, que lutava por igualdade na vida corrida e perversa em que vive a sociedade brasileira nas disputas por espaços político, visibilidade nas redes sociais, votos de grupos aos quais tentam representar. 
Difícil sintetizar o som em palavras positivas que saia da voz de Marielle e entrava pelos ouvidos da população no ativismo social que, via nela, sua representante direta, sim, porque ela estava onde estava a discriminação, a injustiça, o desdém, a pobreza, a humilhação, a discriminação a gênero e orientação sexual, a discriminação de ter sido mãe na adolescência, (como muitas meninas são nas periferias de todo o país, inclusive tendo que deixar de estudar pra cuidar da criança, passando por muita dificuldade em voltar para a escola e seguir em frente seus sonhos de ser alguém que terá uma profissa diferente da maioria da população do entorno.
Defender direitos humanos num território de pessoas desumanizados não é nada fácil, pedras voam em potencial velocidade para acertar e derrubar quem defende esses ideais, no caso de Marielle foram balas na cabeça, que levaram em sua companhia, seu motorista Anderson.
Essa gente conservadora, fascista, que tem na opinião a ilusão de fazer justiça com as próprias mãos, que acha que lugar de pobre é onde nasceu, deve ter nascido em berço de ouro..., (ou não, também tem muito pobre que pensa assim, por conviver com essa gente e dar as costas para receber chicotadas, muitas vezes, por um salário de fome). 
Muitos com mentalidade fascista, não deram margem para se humanizar, mesmo cuidados por trabalhadores domésticos, recebendo apoio de mãos vindas dos guetos, das favelas, dos cortiços, de zonas rurais, de onde surgem muitas mulheres pesquisadoras, instruídas nas universidades públicas que lhes abriram as portas e a cabeça, que usam cabelos crespos como atitude de representação de uma classe discriminada para dizer a que veio.
A polarização entre os extremos políticos, direita, esquerda, está levando o eleitor de diversas ideologias, se digladiar nas redes sociais, criando mentiras pomposas para o fim de descaracterizar o passado da representante dos oprimidos, da mulher que representava um futuro promissor como esquerda autêntica, daquela em que surgiram vários representantes, e também foram, ou estão sendo delegados a eles, inverdades a despeito do poderio de voto que carrega para as próximas eleições.
Ao longo dos anos, a política brasileira sempre teve em foco, através da objetiva de longo alcance, na caça aos políticos verdadeiros representantes do povo, e por esse tempo, o veneno que está em foco, em dose cavalar, é a caça a quem se dispor ter opinião em defesa das minorias, dos trabalhadores do campo e cidades, que têm poder para eleger mais um presidente da república que apeteça seus sonhos e os represente. 
A velocidade da informação dos veículos de comunicação e a quantidade de pessoas que a ela tem acesso, não espera que cruzemos os braços, trabalhadores, todos têm que acender a lanterna para sinalizar o caminho que leve a maioria receber informação, e não ficarem sentados em cadeiras confortáveis, apenas vendo até onde vai dar o fim do filme que não acabará nas eleições de outubro. Vai longe, e todos precisam participar como figurante, coadjuvante ou ator principal.
Zé Sarmento 

domingo, 25 de fevereiro de 2018

TUDO PELO SOCIAL

Tudo pelo social
Cada gota de sangue e suor que circula no universo do meu corpo, se faz presente por existir como gente que luta pra encontrar  harmonia, sustento, carinho, nas relações, respeito, no social.

Do peito explode artilharia pesada quando fases da lua estão indistintas para clarear os caminhos pelos quais circulo, sem o menor interesse em se dar bem passando a perna em alguém nas relações, no social.

O rugido do leão acende minha artilharia para defender ideais quase mortos por alguém que se perdeu por dentro da sua falta de ideais, no social.

Meu andar sorumbático aparece nos dias de chuva de granizo em formato de navalha afiada, é quando me deparo por debaixo da marquise da desilusão, mas logo vem o sol aquecer novamente minha paixão pelas causas, no social.

Viro fera enjaulada faminta quando solta no meio de gente sem compreensão de partes humanas, que corre para beber sangue arrogante, satisfeito do alimento, me acalmo no colo de quem sabe dar carinho, no social.
Zé Sarmento

domingo, 17 de setembro de 2017

UM VELHO SAFADO

                                                       UM VELHO SAFADO

 

Há um tempo onde tudo termina, pois não é? Ah, se não é!

Para animais que leva na parte superior do corpo, órgão que a natureza deu-lhe para pensar o quanto quiser e o que lhe ataviar, não poderia ter nascido para outra função, ser superior aos demais animais da natureza.

Animais racionais como nós, por mais que o corpo perca a condição do que foi feito para fazer e resistir e sentir,  massa craniana é componente sem reposição por parte da medicina, mas pode viver até o apagamento total sem drama ou com, sem amor ou com, se compondo de sabedoria ou ignorância.

Era o que acontecia com o velho Laza, chamado assim pelos mais íntimos nos negócios que empreendia, Lazinho pelas mulheres e, pelos inimigos de concorrência profissional e de vida pessoal, filho da puta de quinta grandeza.

 Coroa muito esperto. Ao longo da vida pôs muita lucidez peculiar para qualquer situação na massa encefálica. Se não fosse pela doença, estaria fazendo e acontecendo.

Mal que o pegou de uma hora para outra o pôs sobre uma cama. Encontrava condição de se  mexer um pouco aqui, um pouco ali, por não ter condição  de se locomover com maior ou menor velocidade. Movimentos bruscos por parte de algum membro exterior eram acontecimentos do passado, perdidos há pouco pelo coração ter dado um basta ao bombear sangue importante para as regiões que precisam ser visitadas de instante a instante.

Viveu muito o coroa Laza, o quase morto já, o que esperava a vela  acessa diante a morte que não tardava levando os últimos suspiros e ser puxado para o andar de cima pela luz encarnada das trevas que ninguém em sã consciência quer, ou azulada em espaço que ninguém veio contar como é, mas que dizem os espiritualistas que existe e que todos desejam estar após a passagem.

De todos os fatos que passaram pela vida agitada que levou o acamado Laza, o que mais  marcou foram àqueles relacionados às mulheres.

“Vixe Maria! Eh mulheres luminosas que me encantou com a formosura, com os declives e aclives do corpo e com as sutilezas dos lábios que ferviam enquanto a quentura do corpo fazia elastecer os dias sem serem por arrasto, esses se descortinavam com prazer, por muitas vezes serem curtos para tantos encontros de negócios e amores”.

Muitas delas passaram pelo seu desempenho de bom amante.

Foi homem fogoso em tempos idos, tempos que só estão guardados na velha lacuna cerebral, escondido por entre encadeamento de tecido que um dia fora regado com mais vivacidade.

Andando pelo glorioso passado de homem de posses, com poder para fazer e desfazer a qualquer hora, era muito visitado por diversas mulheres. Gostava de experimentar todas as raças e teve com isso de conviver com a esposa que nunca deu bola pra verdade ou mentira que circulavam nos encontros granfinos a esse respeito, ou se fazia de desentendida, para não pôr a perder a firma.

 Laza sente que ainda está vivo quando saem dos pensamentos os acontecimentos surreais pelos quais passou em convívio com as mulheres.

Viveu intensamente o coroa, mas por esse tempo de en-treva-mento dos órgãos, ainda encontra na massa encefálica, refúgio para se dizer vivo.

Essas horas quem o cuida divisa com um sorriso tímido  do quase morto. Hora dos sonhos sobre viagens pelo corpo das mulheres que conseguiu amar até onde pode.

Sonhando como sonhava nas horas propícias dos dias viajando ao passado, tinha momentos que verbalizava palavras de entusiasmo para com nomes de  mulheres que se atiraram sobre seu corpo.

Tempos bons que se foram voltava tão somente nas viagens que a cabeça ainda conseguia fazer, não tinha que forçar nada para viajar a esses desempenhos dos pensamentos.

As mulheres sempre exerceram fascínio nas suas atitudes de bom amante, bem dizendo, aquelas mulheres que do corpo, as deusas mitológicas saem perdendo, aquelas que do rosto, Monaliza, de Leonardo da Vince, passa ao largo, aquelas que dos movimentos, nem Sônia Braga ganharia no filme a dama do lotação, nem Vera Ficher nas chanchadas do Walter Hugo Kouri.

Deitado com o costado no colchão, esticado esperando a visita de quem nunca falhou, encontrava lá no fundo d’alma quase morta, o benefício que exerce quem ainda respira ares de sobre vida em possuí-lo. Os pensamentos.

Numa dessas ocasiões, recebendo visita de parentes, foram ater-se com ele e pegar-lhe na mão duas meninas bem jovens, mas que sabiam de tudo sobre os tempos modernos, meninas  que, como as amantes do incapacitado moribundo, conheciam tirar dos rapazes de mesma idade nos banheiros das festas regadas a droga e hock end roll, nas festas raves servidas a comprimidos êxtase, complemento a satisfação de ser alegre e viver de acordo com o bom momento de ser jovem.

Saindo às outras visitas, acharam por bem fazer um estudo mais aprofundado com o quase morto e começaram por alisar-lhe as mãos.

Não satisfeitas em pegar só nas mãos do moribundo, resolveram que era hora de também morder-lhes os pés, as coxas, e lamber o peito que batia descompassado coração.

As duas sabiam fazer crer a quem por elas passavam no serviço da satisfação  ao prazer da carne, que levantavam até defunto.

Há muito, o moribundo sem abrir por completo os olhos, bater as pestanas e movimentar o corpo com maior alusão aos movimentos, nessa hora fez e pode ver as duas. Acendeu muito os olhos vindos às pupilas quase cair fora da caixa. Pelo que mexiam dele e pelo que pode distinguir, descobriu que podia mexer com maior intensidade as pernas, esticar-se, rejuvenescer-se.

Esticou o esqueleto,  retesou até onde pode nessa hora.As juntas estalaram, as duas riram e se divertiram, por achar que estavam recuperando o quase morto.

Continuando buliçosas, descobriram que estavam fazendo um bem dos diabos, mandando embora daquela casa, daquele leito, a dona da foice que corta quem está em pé, deitado ou sentado e manda para debaixo da terra ou para o forno.

Enquanto  as visitas não apareciam no quarto pela fofoca que conversavam na sala, e  em discussão para quem ia o quê depois que o velho juntasse os pés, as duas faziam o doente reviver outrora, dando ao momento, pleno júbilo ao renascimento.

Mordendo joelhos, passando línguas pelos peitos, visitaram quase todo o corpo do velho enfartado, quando uma se interessou em pegar uma das mãos que se sentia revivida e ajudou a ser levada as suas partes  pubianas. A outra com os pés dava a mesma sina, o esfregando nos seios de si.

Meninas danadas. Eram estudantes de medicina, prostitutas ou simplesmente estavam tentando ajudar a quem precisava? Tinham o coração para fazerem parte de alguma entidade assistencialista, ou deveras queriam ver o coroa morrer feliz?

Talvez não fosse nem uma coisa nem outra, talvez fossem simplesmente duas taradas, que não encontrado hoje gente diferente para fazer o que estavam fazendo, foram encontrar no velho doente, amparo para suas taras e novas descobertas, uma vez que só tinham agido dessa forma com rapazes e moças de mesma idade.

Usavam de tudo que podiam pra fazer com o doente aquilo que  deviam ter muita experiência em fazer no banheiro da escola, no carro ou num motel.

Só não acreditaram que o doente fosse se levantar da cama num só salto, agindo assim, caiu às cobertas. Assustaram-se com o membro do doente enrijecido, trazendo o corpo numa tremura de entenderem que estava baixando um santo, dizendo o velho às duas moças que ia morrer satisfeito por elas terem surgido e o levado a perseguir  horizontes de um passado cheio de glória sobre o sexo.

Venham meninas, estou pronto para morrer nos braços de vocês, façam esse favor  a quem desse dia não passa. Dizendo isso com voz trêmula, caiu com parte do corpo na cama, parte no piso, duro como estava, acabou de ficar para sempre.

Correram para sala as duas, onde as visitas se achavam e informaram que o homem tinha se levantado sem nada mais nada menos e caído novamente, dessa vez sem se mexer.

Chegando ao quanto encontraram o doente no chão, com o corpo descoberto e o membro para cima ainda em estado de alerta, tão duro quanto os outros membros.

Nada  como boa química para dar vida a quem está morrendo, quando em excesso retirar de vez.

           


José Sarmento

sexta-feira, 25 de agosto de 2017

NOSSOS DESFILES DIÁRIOS

NOSSOS DESFILES DIÁRIOS 
No Brasil de hoje há varias áreas de desfiles, no campo e na cidade. Passarelas a céu aberto tem fachadas visitadas por diversos calibres de munição, e isto vai aumentar mais por esses dias, com a intervenção militar nos morros favelas do Rio de Janeiro. As paredes de tábuas, alvenarias e corpos receberão buracos de balas, todas com poder de pintar de vermelho o chão acarpetado com modelos masculinos pobres pretos periféricos varados de chumbo nas comunidades.
Há uma luta sem fim por espaço no prato do desenvolvimento insustentável da nossa população descaminhada.
As balas nas noites de qualquer temperatura varam o céu e varam corpos desavisados que desfilam pelas ruas, vielas e becos para o fim do usufruto da existência.
Nesses espaços o céu se ilumina de riscos encarnados numa velocidade de cruzeiro, na troca de tiros por facções rivais ou em represália a repressão policial.
A guerra não tem trégua para dialogo verbal, na violência se resolve o desequilíbrio social para encontrar um pouco de pão que sirva de alimento às classes exploradas pela elite desavergonhada.
Cada pedaço de corpo e osso quebrado dos nossos jovens pretos, periféricos e pobres que visitam os cemitérios, é comemorado por conservadores perspicazes que investe muito do que sonegaram e roubaram na sua proteção.
Uma guerra sem fim não é o fim para quem nasce necessitado de tudo, de amor, carinho, respeito, educação, ação que se faça presente para uma criança crescer sem merecer morrer nas disputas por poder dentro do tráfico, das milícias paramilitares e militares, nos faróis vendendo balas com caras sofridas.
Cada presente que a elite oferece a periferia nas taças da violência,é um tranco de tristeza nos semblantes de mães que pariram filhos em áreas de conflitos das grandes cidades.
A luta é insana e a tendência são os ventos soprarem mais ainda o fogo que queima a autoestima da população pobre do Brasil, tendo em revista diária esse desgoverno imoral que ninguém escolheu para estar onde está, usando do patrimônio público para  locupletar correligionários que o dão apoio.
Zé Sarmento




terça-feira, 18 de julho de 2017

O QUE É PERIFERIA, BURGUÊS?

O QUE É PERIFERIA, BURGUÊS?
Periferia é um recorte da cidade metrópole aonde se encontra os bairros mais carentes ocupados por pessoas  que foram expulsas das proximidades da casa grande.
É lugar recortado por talhos fundos em rosto sofrido por ainda lutar contra o preconceito e as adversidades de uma sociedade conservadora.
Periferia é aonde se assenta os casos de necessidades básicas que o Estado rico formado pela burguesia, não soube como dá o pontapé inicial para acabar com as desigualdades sociais e exclusão.
Periferia é a aonde mora a gente que lhes serve a preço cômodo.
É o lugar de problemas sem solução pra morador das encostas.
É por aqui que o bicho pega em corpo que quer movimento, quer assento nos ônibus pra viajar pra servir vocês do outro lado da ponte.
É lugar recortado por talho de faca, tiro, necessidades, lugar de ruas cheias de vida nos fins de semana com o som da caranga alimentando a alma, que molha a garganta com cerveja de marca ou vinho barato.
Periferia não é só problema, é solução pras vossas necessidades quando estão com a roupa suja, a casa por arrumar e limpar, a cama por fazer depois de uma transa, as paredes por pintar, um portão por consertar.
Periferia é lugar onde vos serve quem nela mora e acorda cedo, chegando tarde em casa, sem dar tempo de ter tempo pra sonhar.
Periferia é lugar de esgoto correndo a céu aberto, córregos maus cheirosos fedendo ao que vocês  consomem, é lugar onde se joga fora vossos lixos quando não os servem mais.
Periferia é lugar de poeta, artista, escritor, doutor que sonha por igualdade de condições num Brasil que não os quis até uns anos atrás.
Nas periferias estão a energia da virada de mesa pra um país mais justo. Delas sairão os votos dos mais elucidados para trazer os políticos honestos pro seu lado, por que estes sempre estiveram do lado de quem não sabe o quê, e seja periferia.
Periferia é brisa na manhã alisando rosto cansado quando sai na segunda- feira para trabalhar em vossos condomínios. Os porteiros de vocês, as faxineiras, os motoristas, manobristas, as enfermeiras que cuidam dos vossos moribundos e nenéns, os vigilantes, os jardineiros, pedreiros, marceneiros, todos dormem em alguma periferia, e acordam cedo para não deixar faltar o café da manhã nas vossas mesas.
Periferia é onde se nascem as crias de um futuro incerto, mas que serão certos que irão vos servir, mesmo sabendo que pagarão pra eles salários miseráveis.
Periferia é lugar que cresce aqueles que no futuro irão fazer tremer as vossas carnes, se o Brasil não descobrir que nela precisa investir muito mais que aí, na educação, cultura, esporte, transporte, moradia, saneamento, renda, saúde.
 Periferia é lugar que estão às armas que os fazem tremer de medo quando apontadas para vossas cabeças, pela vida toda vocês negarem  um pouco do que possuem, por os terem feitos escravos das vossas ações e enriqueceram os expulsando para lá.
Periferia é onde mora a descendência de escravos, de nordestinos, pretos, ídios e brancos pobres que não tiveram oportunidade no campo de atuação que requer a educação.
Periferia é lugar que mora gente que tem sentimento, não de culpa, de culpa teria que ter vocês, por explorá-los até os ossos, e terem enriquecido por sonegar impostos que poderia ter melhorado a situação.
Periferia é lugar que nem os piscinões dão jeito nas enchentes, nos córregos que se enchem levando nossas vidas, como vocês também os levam, os fazendo adoecer de tanto vos servir.
Nas periferias de são Paulo e do Brasil é onde mora gente que não dá risada quando perde um ente querido, chora pelo sentimento da perda, porque é coração, ação, também razão quando é necessário botar  fogo na engrenagem de uma sociedade medíocre que recria seus dramas alicerçando-os através da arte da escrita, da pintura, do cinema, da vida vivida intensamente.

Viva as periferias de todo mundo que busca um acento nas costas do planeta para usufruir do que ele é capaz de produzir. Zé Sarmento

terça-feira, 6 de junho de 2017

POR FAVOR, ME DÁ UM ABRAÇO!

Preciso tanto dele
que chego a pensar que falta em mim
a existência de alguém que ainda respira ar
que sobra tanto a poucos, e falta tanto a muitos.

Não, não é esse abraço que quero
materializado em objetos do desejo e que aquece o corpo pelo gozo com tempo para acabar.

Não precisa estender a mão para me presentear seu brinquedo que fica entre as pernas
mesmo por que não sou mais um jovem que passa o tempo todo pensando numa trepada.

Preciso de uma mão que traga, além do afago
também enderece um sorriso
acompanhado de palavra amiga e gesto ativo.

Gostaria de receber meu abraço
pelos que transportam o bom senso por onde vão
sem acharem que transportam pesada carga nas costas
por não agüentam quilos de angústias.

O Abraço que eu peço é aquele que vem de gesto espontâneo
endereçado também pelos que precisam de atenção,
de atos de lisura e consideração.

Peço esse abraço desde que entrou o primeiro dia do meu entendimento como gente, mas até agora
se aproximando o maduro de mim que entende a verdade
depois de mais de 50 anos, ninguém me adiantou emprestar.

Será que estou sendo muito exigente
pedindo emprestado um abraço florido
que transporte às cores do campo para irradiar o perfume da paz
da civilidade e do entendimento,
da paixão...e sobretudo do amor?

Um abraçozinho só, amigo...sem muito aperto que seja
mas que seja visto e tocado e sentido
que no futuro não faça falta a ninguém que empreenda ceder
e entenda de como emprestar sem mais adiante pedir nada em troca
mesmo porque não tenho nada a dar
a não ser as mesmas competências recebidas.

Meu coração bate acelerado desde já
fazendo o sangue correr a mil pelos corredores do corpo
só em saber que desse ano não passa o presente que peço a tanto:
um abraço sem a fortaleza da soberba
sem o comprometimento da ignorância
sem o tédio da incompetência
sem a infelicidade do desamor
sem a chateação que trás a falta de bom senso
e sem a rudeza da existência dos avarentos.

Que o abraço que peço circule por todos os meios da sociedade
e transforme este gesto
numa festa para quem empreender a sabedoria do boom
que é possuir o bom senso.

Bom senso a todos! E abraço a todos!
quem tem os dois para dar, se sai bem melhor
e não sai por aí derrubando gente a torto e a direito
Usando de todos os meios para destruir um “simples” concorrente
Da vida corrida.

Débora Paim (Homônimo de Zé Sarmento)

domingo, 2 de abril de 2017

CONTOS MEMORIAIS - CONTO 1

              PRIMEIRA FASE

     NO CÉU DE NASCIMENTO

                                                                     CONTO 1


Casa humilde abraçada por um serrote maior do que meu EU menino, era refúgio para uma família com muitas crianças querendo mimo de braços de adultos e comida no prato de barro para saciar a fome.
Uma escadinha no tamanho dos moleques apontava a cada dois anos um óvulo  fecundado com fervor no prazer de se amarem abraçados na quentura das noites sertanejas.
O catre pocilga imunda de vara de marmeleiro amparava colchão de palha de junco, sempre pronto para receber corpos se unindo para fazer novos filhos.
Meu eu menino tem em memória a pobreza, muitas vezes base movediça para motivo de lágrimas no rosto de minha mãe que chorava escondida dos filhos em algum canto mal-cheiroso, roendo restos de unha carcomidas pela aspereza do sabão que retirava fedor de mijo de trapos da miserável família.
Reclamações impertinentes dos responsáveis pela quantidade de filhos, colocados no mundo sem pensar nas consequências, não levava a fábrica da família fechar a linha de produção. Mesmo vivenciando  cotidianamente quão difícil criá-los, continuava com a chaminé acesa soltando jatos de gozo dentro de enorme ventre materno.
Estação sempre aparecia de tempo ruim para o sertanejo selar o riso, bem mais que tempo bom para lhe abrir às gargalhadas. Momento coisa-ruim não existia para a fábrica de embrião humano perder tempo de galar óvulo e gerar mais filhos, prontos para no adulto do futuro dos dias que corria sanguinolento, virar retirantes para algumas plagas distantes. Muitas crianças nasciam concebidas nas noites de qualquer estação de qualquer tempo com chuva, sol, mormaço. A solidão nas noites sertanejas era quebrada por dedos calosos bolinando corpo ainda de pele macia de mãe, bem mais nova que meu pai.
Muito dos bens dos bons anos de inverno desapareciam com pressa, pela seca castigar a terra, gretar em fragmentos desalinhando o solo, e a face do sertanejo ser protagonista das aflições causadas pelas estiagens.
A terra dividida rachada em milhões de seguimentos formava um quadro surrealista, só vindo virar  arte-bela pela técnica da fotografia, ou por mãos de ótimo artista do lápis ou pincel ilustrando sua derrocada nos campos ignotos.
Terra pretumenta nuns cantos largos do sertão, avermelhada noutras áreas imensas de massapé, dava nó em visão de agricultor, quando o sol era o anteparo, e não as nuvens carregadas pelos ilustres visitantes vapor d’água, santificados pelas orações aos santos de devoção da população com São José.
Filhos pequenos e maiores exigiam mastigar o que a terra produzia de suas entranhas, não dava mais para viver de mastigar vento e sol e calor puxados para a boca nos sonhos que a todos alumia.
Terra segmentada, desamparada pelo desaparecimento das plantas viçosas e dos animais, de solidão pela fuga do agricultor que migrava para outras áreas nas secas brabas, deixando mulher e filhos no vazio dos dias mastigando calamidades produzidas pelos coronéis que demandava poder de arbitrar barbaridades.
Tinha nela seu sustento nos bons invernos, nos ruins, tudo sucumbia, dando pernas movimentar para outras áreas do brejo, cariri ou alguma capital dos Estados do país em desenvolvimento horizontal e vertical. A construção civil e as fábricas dominavam o movimento dos paus-de-arara singrando estradas de terra sangrando carnes e mentes dos retirantes.
Produzia poeira e dor algemando peito calafetado sem chave para abrir, as secas medonhas, trazendo doenças e abandono às crianças sem amparo quando o leite materno desaparecia da boca de muitas crias, pelas mães a cada ano receber nova cria em ventre preparado para por no mundo muitos filhos sem destino traçado de como sobreviver estudando os deveres nos cadernos que só a elite entendia que merecia.
Filetes de lágrimas escorriam no rosto pelos encovados canais das rugas dos pais, mais as mães, quando negava aurora primaveril da cor do anil, tempo de inverno sem negação.
Tapera humilde recebia nas noites úmidas, quentes que fossem, muitas redes estendidas com corpos de jovens e crianças, mais os dois adultos casal em cômodo separado numa cama, sempre se balançando impulsionada pelo movimento da máquina de fazer gente, as redes os pés faziam o movimento quando dava de encontro a alguma parede de reboco na casa de taipa.
Não tinha televisão!!!
Casebre trepado na solidão do alto do morro, segura por base sólida de granito, não entendia quão difícil foi o transporte das pedras para a construção do açude logo acima.
Em companhia de muitos filhos vindos de um só ventre, surgiam uma vez ou outra, homens do governo com pulverizadores nas costas para branquear as paredes da tapera de veneno, dizendo o responsável pelo evento, ser a mando de sanitaristas para dizimar ovos de barbeiro.
Estavam matando gente, dando prejuízo às finanças do governo, por gastar muito do bem público com a doença de Chagas.
Informou o homem de branco, não tivessem medo, não, podia as crianças partir pra cima e torar o rabo das lagartixas, mais tarde apareciam de rabo novo, como as diabruras sempre se renovava para prolongar o sofrimento dos homens e dos jumentos, animais que serviam pra jabá, depois de trabalhar tanto carregando peso no espinhaço para as trempes de fogão a lenha, sacos de mantimentos colhidos nas roças e capim para os cercados de varas que resguardava algum animal leiteiro.
O tempo por aquela região do polígono das secas vivia de tempo ruim num tempo, de tempo bom noutro, mas bem menor os bons tempos que os ruins.
Morcegos encandeados pela amarela lâmpada do teto da tapera, alumiando feito ouro de tolo, fossem chupar sangue de animais e não de meninos nas madrugadas,  já não possuíam  bons fluidos pra movimento, muitos de muitas famílias já se achavam tortos pela desnutrição infantil.
Vaquinha presa no cercado de arame farpado, não dava mais de alimentar os meninos pela falta de verde pasto, choramingavam ao lado puxando o vestido querendo mimo e o leite da mãe que também os peitos  secaram.
Sorria e fazia sorrir a vaquinha às famílias mais poderosas na economia de possuí-la nas invernadas, por fresco capim a qualquer hora colhido em vazante  nos descampados baixios que seguravam alguma umidade mais prolongada.
Crianças muitas, sustentadas na sua essência familiar pelo mais valente dos homens, davam movimentar pelos matos e terreiros sem anteparo às pernas nuas e descalças com  barriga saliente pelos vermes estocados, cachetes pra lombriga distribuídos pelos agentes de saúde, faziam mais tarde despejar os montes pelos matos dos aceiros de casa.
Cabra macho pai como aquele não existia, como muitos, cabra que num passado andou armado em proteção de coronel poderoso e parentes politiqueiros do sertão.
Homem de passado que se dispôs entocar-se nas brenhas das capoeiras, pra pegar de surpresa o inimigo da política dos coronéis dos anos trinta. Derrubava jagunços dos poderosos inimigos que queriam administrar o poder do sertão a seu modo, num piscar de olhos a mando do coronel.
Com tiro de coiteiro certeiro com rifle papo amarelo, o inimigo de outra facção política, de disputa por terra e derrubada de cerca,  visitava o chão, lá ficando para sempre sem bater as pestanas, nem saber de onde partiu a munição que o varou no peito e o jogou ao chão.
De cem metros alvejava o coração de ossos em movimento, sobre montaria, dizia o homem que um dia, alicerçado pelo poder de matar e proteção de quem detinha poder, viveu esse período do sertão do vale-tudo sem lei nos anos vinte e trinta.
Cabra que atirava como ele garantia empregado com passagem e carta de alforria, liberdade para viver acoitado em qualquer terra, de coronel poderoso, ou de político que lhe desse proteção.
Quem tivesse mais poder, o levava como protetor das sesmarias sem mais quais quais quais.
A tapera do cabra pau pra toda obra suspensa por paus de aroeira da braba caatinga, com certeza de prazer na hora do fazer muitos filhos, viu nascer dez rebentos, escapar oito com vida sem vida, sem irmandade nem anestesia pra sarar as dores da agonia da fome.
Com o tempo viviam pulando feito potro brabo, sem arreio, pelo meio da tapera dispersa, terreiro e adjacências, livres para fazer o que desse na telha recém nascida infantil e junvenil. Não existia preocupação de encontrar pela frente, alguém que os fizesse mal, além da fome e a quase miséria do entorno. O medo amedrontava mais quando a mãe gritava: “entra pra dentro, menino, cuidado com o papa figo”!
Pessoas de má índole, diziam, pegavam criança pequena pelas capoeiras e arrancava o fígado para vender às famílias de quem tinha gente com problema hepático e muito poder em bens e dinheiro. Acontecia de ser assim, se a família tinha poder de sobra pra pagar em partes ou a vista, a mercadoria retirada dos órgãos das crianças pobres lesando distante dos terreiros de casa.
Medo dos ciganos também fazia moleque se esconder nas brenhas, ou por baixo da saia de qualquer um da família mulher. Roubavam o que aparecia de interesse, jogavam praga a quem não ajudasse com esmola de caneca de grão de feijão, arroz, farinha, café, galinha, peru, pato, pedaço de leitão, carne de sol ao sol secando, salgada para se proteger das moscas varejeiras que pousavam ovos e criava bicho feio tapuru que dava engulho.
A tristeza maior pra moleque vinha quando na hora do almoço, jantar, merendar, via no prato de barro, feito pela vizinha artesã, o pastoso angu da cor de sangue que escorria dos buchos de cabras arruaceiros, que mexiam com moça donzela e não se sujeitavam a casar na polícia, por poder que o pai exercia nos desmandos. Faca, punhal e bala faziam estrago no corpo de quem não impunha respeito.
Sentia que a seca ressurgia, trazendo um pouco do purgatório,  levando um pouco do céu para fora do prazer que emanava dessa época de fartura, nas chuvas.
Abastança de milho cozido, assado, pamonha, canjica ao sabor de canela em pau, desapareciam nas estiagens prolongadas, era quando dava de crescer o bucho das crianças, pela terra e bosta de animais virarem insumos em alimento.
Desaparecia nas estiagens grãos como fava, feijão verde com nata nadando em caldo saboroso, arroz novinho grudado por ser filhote de grão branquinho ou vermelhão, só sobrava para alimento alguma farinha encaroçada nas vendas de espertos comerciantes, feijão gorgulhento e milho bichado para o moinho triturar e virar cuscuz, angu que fazia azia em goela que requeria mais substancioso alimento.
Colhidos da terra de vazante, ou nos baixios que mais segurava água, surgiam com fartura nas casas dos colonos e rendeiros todo tipo de legumes. Na chuvarada.
Fartura de sorriso nos lábios preenchia cara de moços e velhos, só a terra tinha o poder de produzir sorriso farto. Na chuvarada.
Arroz precisa de água pra se segurar ereto, produzir com profusão, assim como o sertanejo, para deixar de rolar na face, a água do seu interior e curvar-se à terra pra virar estrume nas mãos de quem tinha algum poder estatal ou particular. Os coronéis.
As chuvas traziam muita fartura e ainda segurava o agricultor no seu habitat, perdendo as capitais do país mão de obra barata para as lidas nas construções e fábricas de moer carne de gente deixando a alma demente.
A seca trazia muitos desenganos para o sertanejo que, por causa dela, estava sempre preparado para migrar como retirante.