Registro em foto e texto
escrito no período da eleição para prefeitos, no segundo mandato do presidente
Lula no ano de 2008.
Não é por acaso que o
nosso presidente, Luiz Inácio Lula da Silva é tão bem avaliado neste momento
histórico pelo qual passa o Brasil.
Tive oportunidade de
testemunhar de perto, trabalhando como gaffer em campanhas políticas, alguns
momentos que ajudam a entender essa identificação tão forte com o povo.
As primeiras palavras que
pronunciou ao entrar no estúdio foram:
— Não tem café aqui, não,
gente? Em todo lugar que eu chego tem sempre um cafezinho me esperando.
O café foi entregue em
suas mãos. Antes mesmo de se sentar na cadeira de maquiagem, Lula tomou alguns
goles e acendeu uma cigarrilha. Enquanto isso, conversava naturalmente sobre os
mais diversos assuntos.
Os marqueteiros que o
acompanhavam haviam levado pilhas de textos para serem gravados, destinados a
correligionários de todo o país. Explicavam:
— Presidente, essas
pessoas são da base de sustentação. É importante que o senhor faça essas
entradas para ajudá-las.
Lula reagia, meio
surpreso:
— Gente, mas são
candidatos de minúsculas cidades!
— Sim, presidente. Do
quinto escalão. Mas são eles que cuidam do dinheiro dos projetos sociais
criados por Vossa Excelência!
E completavam:
— O senhor é o presidente
mais bem avaliado da história. Por isso eles pedem socorro!
Lula não hesitou:
— Vamos gravar. Já que
estou aqui, a gente faz! Não podemos demorar. Eu tenho que dar uma passada no
velório do Heleno Bezerra. Coitado, era um companheiro do bem!
Entre uma conversa
política e outra, surgiam as brincadeiras com os nomes das pequenas cidades e
dos candidatos da base aliada. Futebol também não ficava de fora. Lula dizia
que o centroavante Nilmar era, naquele momento, o melhor jogador do Brasil,
lamentando apenas a facilidade com que sofria contusões.
O Corinthians,
naturalmente, também entrou na conversa. Perguntava a um e a outro, sem fazer
distinção de função ou cargo, se tinham visto o jogo do Timão na noite
anterior, sábado. Queria saber das opiniões, comentava os lances, perguntava
pelos jogadores.
A gravação que seria
realizada em seu apartamento, em São Bernardo do Campo, acabou transferida, de
última hora, para um pequeno estúdio da TVT – Televisão dos Trabalhadores. Era
muita gente envolvida.
Quando terminou a
gravação e já estávamos novamente dentro da van, ficou evidente a impressão que
Lula havia causado em todos. Não houve uma única pessoa, da mais importante à
que exercia a função mais humilde na produção, que não demonstrasse admiração por
aquele homem que, apesar da posição que ocupava, mantinha uma maneira simples e
espontânea de tratar as pessoas.
Um dos integrantes da
equipe, sentado mais ao fundo da van, resumiu:
— O homem veio do nada e
chegou a São Paulo num pau de arara. Sabe o que é gente.
Foram gravados spots de
trinta segundos para diversos candidatos de capitais, cidades médias e
pequenas. Depois de cumprir essa parte do trabalho, Lula ainda concordou em
gravar um off — apenas a voz — para mais um candidato.
O pedido partiu de um
funcionário do estúdio, responsável pela iluminação. Ele explicou que a
gravação seria para um parente candidato, por um partido da base aliada, em uma
pequena cidade de Pernambuco.
Havia, naquela
solicitação, uma história que parecia tocar alguma coisa da memória do próprio
Lula. Quando criança, aquele homem havia vindo para São Paulo com a mãe e os
irmãos, todos sobre a carroceria de um caminhão.
O intermediário para
conseguir a locução foi um dos seus seguranças da Polícia Federal.
Ao final, chegou o
momento das fotografias. Todos queriam tirar fotos ao mesmo tempo, naturalmente
com a intenção de agilizar o trabalho. Lula, porém, propôs outra coisa:
— Vamos tirar uma de cada
vez.
Eu me prontifiquei para o
registro.
E assim foi feito.
Aquela atitude simples,
como tantas outras que presenciamos naquele dia, deixava evidente uma
característica que talvez explique, mais do que qualquer discurso político, a
relação que Lula sempre manteve com as pessoas: uma identificação
extraordinária com o povo.
Ele podia estar cercado por marqueteiros,
políticos, seguranças, profissionais de televisão e toda a estrutura que
envolve um presidente da República. Mas, naquele pequeno estúdio, entre um
café, uma cigarrilha, uma conversa sobre futebol e dezenas de gravações,
continuava sendo, para todos nós, o homem que sabia conversar com qualquer
pessoa como se já a conhecesse.
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