sábado, 12 de setembro de 2020

ACREDITEI QUE NOSSO PAÍS TINHA JEITO. ERA SÓ PRENDER O LULA – BESTA!


Registro em foto e texto escrito no período da eleição para prefeitos, no segundo mandato do presidente Lula no ano de 2008.

Não é por acaso que o nosso presidente, Luiz Inácio Lula da Silva é tão bem avaliado neste momento histórico pelo qual passa o Brasil.

Tive oportunidade de testemunhar de perto, trabalhando como gaffer em campanhas políticas, alguns momentos que ajudam a entender essa identificação tão forte com o povo.

As primeiras palavras que pronunciou ao entrar no estúdio foram:

— Não tem café aqui, não, gente? Em todo lugar que eu chego tem sempre um cafezinho me esperando.

O café foi entregue em suas mãos. Antes mesmo de se sentar na cadeira de maquiagem, Lula tomou alguns goles e acendeu uma cigarrilha. Enquanto isso, conversava naturalmente sobre os mais diversos assuntos.

Os marqueteiros que o acompanhavam haviam levado pilhas de textos para serem gravados, destinados a correligionários de todo o país. Explicavam:

— Presidente, essas pessoas são da base de sustentação. É importante que o senhor faça essas entradas para ajudá-las.

Lula reagia, meio surpreso:

— Gente, mas são candidatos de minúsculas cidades!

— Sim, presidente. Do quinto escalão. Mas são eles que cuidam do dinheiro dos projetos sociais criados por Vossa Excelência!

E completavam:

— O senhor é o presidente mais bem avaliado da história. Por isso eles pedem socorro!

Lula não hesitou:

— Vamos gravar. Já que estou aqui, a gente faz! Não podemos demorar. Eu tenho que dar uma passada no velório do Heleno Bezerra. Coitado, era um companheiro do bem!

Entre uma conversa política e outra, surgiam as brincadeiras com os nomes das pequenas cidades e dos candidatos da base aliada. Futebol também não ficava de fora. Lula dizia que o centroavante Nilmar era, naquele momento, o melhor jogador do Brasil, lamentando apenas a facilidade com que sofria contusões.

O Corinthians, naturalmente, também entrou na conversa. Perguntava a um e a outro, sem fazer distinção de função ou cargo, se tinham visto o jogo do Timão na noite anterior, sábado. Queria saber das opiniões, comentava os lances, perguntava pelos jogadores.

A gravação que seria realizada em seu apartamento, em São Bernardo do Campo, acabou transferida, de última hora, para um pequeno estúdio da TVT – Televisão dos Trabalhadores. Era muita gente envolvida.

Quando terminou a gravação e já estávamos novamente dentro da van, ficou evidente a impressão que Lula havia causado em todos. Não houve uma única pessoa, da mais importante à que exercia a função mais humilde na produção, que não demonstrasse admiração por aquele homem que, apesar da posição que ocupava, mantinha uma maneira simples e espontânea de tratar as pessoas.

Um dos integrantes da equipe, sentado mais ao fundo da van, resumiu:

— O homem veio do nada e chegou a São Paulo num pau de arara. Sabe o que é gente.

Foram gravados spots de trinta segundos para diversos candidatos de capitais, cidades médias e pequenas. Depois de cumprir essa parte do trabalho, Lula ainda concordou em gravar um off — apenas a voz — para mais um candidato.

O pedido partiu de um funcionário do estúdio, responsável pela iluminação. Ele explicou que a gravação seria para um parente candidato, por um partido da base aliada, em uma pequena cidade de Pernambuco.

Havia, naquela solicitação, uma história que parecia tocar alguma coisa da memória do próprio Lula. Quando criança, aquele homem havia vindo para São Paulo com a mãe e os irmãos, todos sobre a carroceria de um caminhão.

O intermediário para conseguir a locução foi um dos seus seguranças da Polícia Federal.

Ao final, chegou o momento das fotografias. Todos queriam tirar fotos ao mesmo tempo, naturalmente com a intenção de agilizar o trabalho. Lula, porém, propôs outra coisa:

— Vamos tirar uma de cada vez.

Eu me prontifiquei para o registro.

E assim foi feito.

Aquela atitude simples, como tantas outras que presenciamos naquele dia, deixava evidente uma característica que talvez explique, mais do que qualquer discurso político, a relação que Lula sempre manteve com as pessoas: uma identificação extraordinária com o povo.

Ele podia estar cercado por marqueteiros, políticos, seguranças, profissionais de televisão e toda a estrutura que envolve um presidente da República. Mas, naquele pequeno estúdio, entre um café, uma cigarrilha, uma conversa sobre futebol e dezenas de gravações, continuava sendo, para todos nós, o homem que sabia conversar com qualquer pessoa como se já a conhecesse.


Você, Marcio Rodrigues, Joana Vieira e outras 17 pessoas
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