quinta-feira, 23 de julho de 2020

MEMORIAL DA CASA DE TAIPA ONDE NASCI


Memorial da casa de taipa onde nasci


No tempo d’EU menino
Aqui existiu uma tapera humilde abraçada por barro socado.
Refúgio para uma família
Com muitas crianças querendo mimo de braços de adultos
E comida no prato para saciar a fome. 
Uma escadinha no tamanho dos moleques
Apontava a cada dois anos...
Um óvulo fecundado.
Havia fervor no prazer de meu pai e minha mãe
Ao se amarem abraçados
Na quentura das noites sertanejas.
O catre pocilga de vara de marmeleiro
Amparava colchão de palha de junco
Sempre pronto para receber corpos se unindo para fazer novos filhos.
10 vieram ao mundo. 8 escaparam!
Meu eu menino tem em memória a pobreza.
Base movediça pra motivo de lágrimas
No rosto de Dona Francisca. Minha mãe!
Ela chorava escondida dos filhos
Em algum canto mal-cheiroso.
Roia restos de unha carcomida pela aspereza do sabão.
Lavava todo dia fedor de mijo de trapos da miserável família.




segunda-feira, 20 de julho de 2020

AQUI TEM HISTÓRIA - NUM TOU ME GABANDO



AQUI TEM HISTÓRIA
Sessentinha e mais, inteiro.Num tou me gabando.

Não foi nada fácil chegar aos sessenta e três anos, (quem acha que tenho menos ou  mais levante a mão), resisti desde que nasci, não sei como, acho pela fé em querer realizar coisas, lutar pra sair da miséria em que fui criado e mostrar pro meu pai que não seria o inútil que ele dizia que eu ia ser, por ser o moleque mais rebelde dentro da casa de taipa, entre os 8 irmãos, todos homens, que Antonio Aurélio Marques Sarmento concebeu no ventre de Francisca Marcelino Sarmento, sua prima, minha mãe. Aos 19 anos São Paulo foi a saída, acompanhando um irmão que havia se mudado para cá há 2 anos e lá foi passear, levou radinho de pilha vermelho, calça de tergal com vinco boca de sino, camisas sociais, camisetas coloridas, sapato plataforma, relógio seiko dourado, cinto de vivela vistosa, brilhantina para o cabelo, perfume, corte de panos pra mãe e pai e irmãos, vim com ele, viajara para cá depois de um casamento na ‘poliça’, forçado, pegou uma moça virgem no mato, ou casava ou ia pegar cadeia na cidade de Sousa, chagando aqui o choque foi duro, era muito inocente, bobinho, tímido, difícil de enturmar, tinha medo de fazer amizade, ser sugado por ela, quase entrei numas, mas segurei, nas bocas do lixo, no cinema, era muito centrado, racional, apesar de bobinho sabia o que queria, medo da cidade, sempre meio recluso, muito preocupado em ganhar tempo em aprender  aquilo que não consegui até os 20 anos, quando no sertão, nas  minhas incursões culturais o livro sempre esteve presente, desde que aprendi a ler aos 14 anos, isto me acompanhou para cá, também o cinema e o teatro, não consegui tudo que almejei economicamente, isto é fato pra filho de bacana, pertencente a uma elite que explorou, explora pobres de todas etnias com a esperteza de uma mente doentia e conservadora pronta para se dar bem a qualquer preço,  tudo bem, os 4 filhos salvos, criados, na perifa, com suas profissões, agora é pensar levar os dias com tranqüilidade, pensando muito em como trabalhar mais minha literatura, continuar aprendendo nos livros, nas ruas. Sempre fui aberto aos saberes, muito curioso, no primeiro livro que editei disse pra mim mesmo, vou fazer um puta sucesso, comer um monte de mina, viajar, ganhar grana e viver como escritor, pensamento  escroto, né? vai ser da hora, ledo engano, se liga aí a vida é dura, cheia de coisas que se chama capacitação, estudo, entrega, sorte, cu pra lua, politicagem, vaidade, interesse, pouca virtude moral, ética, muito sexo e porralouquice, o sucesso como geralmente a maioria da população aceita precisa de tudo isso. Sempre fui, desde novo, contestador dos valores tradicionais dessa direita maldita que sugou e suga a esperança dos trabalhadores e suas gerações, lhes negando o direito ao aprendizado, direito a mobilidade social e econômica...

sábado, 18 de julho de 2020

UM DIA VOU VIRAR O BICHO!

UM DIA VOU VIRAR O BICHO!
Ando acuado, retraído, por ser picotado em diversas partes, depois me remendam como se fosse pano velho, traste esquecido nos fiapos sobrados, usam de me remendar quando querem com agulha de aço sem anestesia enferrujada.
Vem uns salafrários e cortam meus braços, me fazem cair do voo que acabo de tentar, pulando de uma pirambeira para planar.
Outros dos infernos aparecem, como um deserto, sem um pingo de doce água pura pra banhar a minha sede, e ainda me aplicam uma rasteira, levando pra mais perto da beira do sacrifício, com um tombo mortal, caio outra vez, não faz mal, digo com humildade, sou igual Prometeu, me comem os órgãos os corvos, renascem mais tarde com mais força, senão com diálogo, na força abrupta. 
Sou cabra da peste criado com rapadura!
Dramático é quando atravessam meu peito com uma espada do melhor aço manuseada pelo sábio samurai chinês, protegiam senhores da guerra, hoje protegem os senhores fascistas revestidos de radicalismos com idade mental conturbada, esvaziam meu sangue do corpo, fico branco como uma nuvem sem poder de precipitação, mas logo me recarrego de nova fúria, meto os pés pelas mãos, dou rasteira em quem me quer ver pelas beiras e saio de pinote, aprendi com o filho de Mario de Andrade, Macunaíma, ser dependente pra sobreviver, em fazer muitas marmotas com caras tristes e alegres, angustiadas ou fadadas pela dor latente do desrespeito. O punhal do meu pai na sua mão dava jeito em quem tinha defeito de caráter naqueles tempos idos do anos 1930!
Difícil é suportar as dores da humilhação psicológica, quando querem empurrar para dentro do meu cérebro, um monte de lorotas.
Quero partir pra cima, dá o troco com os trocados que não tenho, por não ser filho de além mar, e ter chegado aqui com uma mala de dinheiro pra comprar tudo bem barato, começar a vida explorando os miseráveis com terras doadas pelos governos.
Paro, reflito, é quando vem alguém sem desdém, com respeito e diz: deixa pra lá. Esquece fii da peste!Essa elite é mesquinhenta!
É mesmo!

segunda-feira, 13 de julho de 2020

Zé Sarmento no jornal da TV Gazeta.São Paulo.

Zé Sarmento Escritor, paraibano paulistano que faz em Sampa.

quarta-feira, 8 de julho de 2020

AQUI TEM HISTÓRIA - O CINEMA E EU


AQUI TEM HISTÓRIA - MAIS 1 DO CINEMA E EU
Minha profissão de técnico eletricista de iluminação de cinema desde o início dos anos de1980, me fez ralar pra porra, hj se diz gaffer, partes de mim a profissão esmagou, engoliu e cuspiu, verdadeiro apagamento memorial, comecei na boca do cinema paulista, Rua do Triunfo, depois nas produtoras da Vila Madalena, fixo em produtora por um tempo em meados dos anos 80, depois frila, PJ, mais de 20 longas-metragens nas costas arranhada por refletores, cabos, tripés, documentários, curtas, reclames, institucionais, muitos, como trabalhei para o bem comum de todos e felicidade do diretor de fotografia,  profissional que requer nossa atenção no set, e também o que recebe as estatuetas nos festivais pelo mundo, além de diversos profissionais, é claro, quem é da área sabe que a equipe da “pesada” são os primeiros profissionais a chegar e os últimos a sair, não podem errar, as exigências são de escalpelar até os cabelos do saco, de tanto andar e servir cria-se ferida na virilha, com muitas horas de filmagem e correrias, hoje gravação, tchau película, em que,  todos, em uníssonos,  estão com o cu na reta, informo, não se podia reclamar da remuneração, hoje virou uma disputa entre vendilhões pra vê quem chega primeiro ser explorado pelos baixos cachês pagos e muitas horas trabalhadas, mais de trinta dias pro faturamento, os tempos são outros, fiquei velho, fui cancelado, mas tive paciência pra com ela criar meus filhos com suor, força e vontade de não vê-los passar necessidades básicas nem deixar a lança do abandono e a da falta de rumo entrar no peito deles nas ruas da quebrada da zona sul de Sampa, em certos momentos tinha a humilhação vinda de atitudes arrogantes do diretor/produtor e outros tantos, burgueses que achavam estar realizando uma obra prima filmando um reclame, pela família ter gastado 8 mil reais por mês (acho, hj)  e estudado na FAAP, diferente dos diretores de longa, conteúdo, são todos mais humanizados, não deixava barato, podia ser com quem fosse, até com dono de produtora, diretor e tudo o mais, usava meu estado emocional social e coletivo, esquecendo que tudo é político, pra defender a equipe, agindo assim, dei minhas cabeçadas incertas, pra mim corretas, na contribuição para fechar algumas portas, por isso estou e sempre estive com tempo para meus livros, voltar estudar, poetizar a vida,  grandes textos, pequenos, leitura e para escrever este post, tem males que vem pra bem, meu bem, diz um velho ditado popular.
A literatura e o cinema são linguagens que se abraçam, se beijam e transam fogosamente a qualquer momento, em qualquer lugar, para o bem comum do nascimento de novos rebentos da arte da linguagem e da imagem. 
Zé Sarmento

domingo, 5 de julho de 2020

AQUI TEM HISTÓRIA – DE SOBREVIVÊNCIA E O CINEMA


AQUI TEM HISTÓRIA – DE SOBREVIVÊNCIA E O CINEMA
Hoje me peguei retrocedendo o juízo sobre minhas vivências profissionais com as equipes de cinema, logo no início da minha profissão no audiovisual. Do modo como algumas pessoas diziam, caçoando sobre o nordestino novinho que vinha tentar a vida aqui na metrópole paulistana, tipo minha figura baixinho, troncudo, pardo, de sobreviver aos tempos de seca braba comendo caças locais, caçadas embaixo de lajedos, nas veredas em meio a mata esturricada da caatinga sertaneja, nas pirambeiras das serras distantes de casa. Os profissionais mais gabaritados, espertos, diziam: vem cá, comedor de calango, me ajuda nisso ou naquilo! Engolia seco pra não entrar em conflito ou, às vezes, dava risada me segurando por dentro pra não explodir e confrontar o racista. Digo, não tinha muita noção de tudo que tenho hoje, das ondas nefastas do preconceito, do bulling, adquirido esses saberes com vivências e estudos e pesquisas e leitura. Quero dizer sim, racistas, as caças caiam fervilhando entrando pela boca, descendo para o estômago para encher as tripas, e praticava grande alegria pra quem estava prestes a desmaiar de fome. Como mistura era a salvação, sem noção sobre as culturas dos povos. Quando havia tempo de falta de quase tudo em casa, a salvação pro menino e os outros membros da grande família pra se alimentar, e ter como mistura, pra não ficar só no feijão e arroz e farinha, eram as caças. Saíamos envenenado pra cima delas nas veredas sertanejas caçando preá, peba, tatu, tamanduá, teiú, camaleão, gambá (essa caça, minha mãe tinha experiência em tratá-la bem, pra que ela não ficasse com o fedor do seu xixi na carne, nem aos derredores do oitão da tapera de taipa.
Das aves, quando as lagoas eram formadas nas cheias, os adultos iam com suas espingardas pra cima dos paturís, socós, galinhas d'água, (bacurau não, esse pássaro era muito escaldado e era ave presunçosa por saber se camuflar) codorna, codorniz, arribaçã, rolinha caldo de feijão, pássaro de arroz, esses caiam com os disparos das espingardas de socar. Para os cachorros era uma festa, pra nossa gente, substância nutritiva em proteína e melhorar o sabor do que engolia à seco.
Quando o inverno se segurava por meses, a produção de alimento nas roças de coivara, nos baixios, grotas e vazantes aliviava a aflição do sertanejo, era quando saia arrotando de bucho cheio. Fui um menino danado na enxada ajudando meu pai a preparar a terra, plantar, colher. Milho verde, feijão verde, (depois maduros e secos) jerimum, arroz, mandioca, gergelim. No final do inverno, quando este era de primeira e alegrava a vida sertaneja, algumas arrobas de algodão eram colhidos. Produto que branqueava os campos, e servia pra fazer algum dinheiro, e meu pai e mãe trocarem algumas redes velhas por novas. Nunca dava pra dá um banho de loja em nenhum dos filhos. Isso ocorria quando meu pai recebia alguns atrasados do DNOCS como funcionário operário padrão do sertão.



segunda-feira, 29 de junho de 2020

AQUI TEM HISTÓRIA - É TUDO VERDADE II


NÃO TÔ ME GABANDO - AQUI TEM HISTÓRIA
QUEM QUISER ME CONTRATAR PRA MINISTRO, NÃO VAI PASSAR FEIO DEPOIS.
É TUDO VERDADE. 
Me considero resistente como o cacto da caatinga, a aroeira, o angico. A macambira. Um pé de umbu! José Marques Sarmento (José Sarmento), 65 anos, morador da periferia da zona sul de São Paulo. Trabalhou como boia-fria até os 19 anos. Alfabetizado somente aos 14 anos. São Paulo foi à saída. Fez-se profissional de elétrica e iluminação do audiovisual em longas-metragens, curtas e muita publicidade. O famoso e poderoso GAFFER. Haha! Casado, pai de quatro filhos. Licenciado em História com bolsa do PROUNI, depois de voltar estudar aos 50 anos na EJA e terminar o ensino médio.15 livros publicados mais alguns prontos pra publicação. Um Homem Quase Perfeito; A Revolução dos Corvos; Urbanóides-um caos paulistano; Paraisópolis-caminhos de vida e morte; O Sequestro do Negativo Exposto; Bixiga-um cortiço dos infernos, Ângela-um jardim no vermelho; Guerreira; Os Miseráveis da Seca; Vazante - lá e cá;  Aprisionado- um campeão de slam; Encarniçados-a poética do caos, os três com fomento ProAC 2022/23/24. Declama seus textos em saraus. Há mais de 15 anos faz palestras de formação, mediação e oficinas literárias em bibliotecas, contação de histórias em escolas públicas para incentivar a leitura, o livro, a literatura, a poesia, os saraus. Escreveu uma trilogia histórico-ficcional sobre bairros de São Paulo, para falar sobre três periferias: a do centro, a do meio e a das margens. Bixiga, Paraisópolis e Ângela. Tem dois livros publicados em e-book: Amor Despedaçado e Monalisa Dona Minha. Em 2021 lançou Os Miseráveis da Seca, livro que completa uma tetralogia sobre retirantes nordestinos pros grandes centros. 
Lembrete, não sabe administrar a própria carreira, pois, se soubesse, não seria o escritor com tantos livros lançados mais desconhecido do país. Risos. Assina: José Marques Sarmento, José Sarmento ou Zé Sarmento nas redes sociais. Na meninice como boia-fria era chamado de Zézito, como gaffer profissional de cinema rodou bolsinha como Zitto. Hj é Zé ou José. Eh, vida doida. Dia 19 de março é o dia do seu aniversário, dia de São José, o santo mais foda para o sertanejo, e acha ser protegido por ele. Anda cheio de sonhos a respeito do livro, leitura, literatura, poesia, saraus, por ter colocado ponto final num novo romance, que não vai citar título "provisório", nem estética nem temática, sabe que tem gente que é chupim pra caralho e, que, o Zé gosta de por subtítulos nos livros que lança. Nóiz!