AQUI TEM HISTÓRIA – MEUS ESCRITOS ROMANCEADOS
Aqui tem tudo junto e misturado na criação da escrita:prosa, crônica, conto, prosia. Fotos.
quinta-feira, 2 de junho de 2022
AQUI TEM HISTÓRIA – MEUS ESCRITOS ROMANCEADOS
AQUI TEM HISTÓRIA – MEUS ESCRITOS ROMANCEADOS
terça-feira, 7 de setembro de 2021
AQUI TEM
HISTÓRIA - DESFILE
O 7 de
setembro da minha meninice era esperado com entusiasmo pelos estudantes da
escola onde estudei no distrito de São Gonçalo, Sousa, PB. Era tipo um beijo na boca da garota por quem se estar
apaixonado.
Quinze dias
antes começavam os ensaios para a data cívica com maior relevo nacional pelo
fato de ser o regime militar a administrar a nação. Desfilava todas as classes
de aluno a partir do quinto ano.
Tambores como
bumbos, surdos, tamborins e caixas, recebiam no couro cacetada dada por mãos
que batiam sem dó para acompanhar o ritmo.
A rua
principal da minha vila se enfeitava de cores da bandeira do Brasil.
O verde e o
amarelo predominavam balançando ao vento penduradas em postes e árvores.
No rosto de
alguns alunos, algum sofrimento pelo sol bater na moleira e o corpo amolecer,
mas no da maioria, alegria era o que se via, por estar servindo a pátria mãe
gentil.
Máquinas agrícolas
do DNOCS se juntavam ao desfile e arrastavam os estudantes com batida de pé no
calçamento da rua 16, a principal. Varava minha vila de uma ponta a outra. Desde
a escola a ponte de tábua.
Do alto da
gruta, nossa senhora jogava seu olhar faiscando proteção aos que desfilavam de
encontra ao palco principal.
Crianças e
jovens estudantes da escola Estevam Marinho, recebiam na moleira o sol
inclemente do sertão, acompanhado por professores e pais. Precisavam ser
resistentes para engolir as horas desde as sete da manhã a uma da tarde. Dia em
que as mães preparavam alimento melhorado no aspecto, sabor e cor.
Os
instrumentos cadenciavam a pisada dos enfileirados e alinhados alunos rumando em
direção ao prédio principal da administração pública para escutar discursos de
autoridades.
domingo, 6 de junho de 2021
O caldeirão fantástico de José Sarmento para nos lembrar das agruras do nordestino
Linaldo Guedes
linaldo.guedes@gmail.com
Imagina Antonio Conselheiro, seca braba, imigração e realismo fantástico tudo junto e misturado num livro só. Imaginou? Pronto, é mais ou menos isso que você vai encontrar no livro “Os Miseráveis da Seca”, de José Sarmento, publicado pela Editora Filoczar. Lembram da canção “Caldeirão dos Mitos”, de Braulio Tavares, imortalizada na voz de Elba Ramalho? Então, é mais ou menos naquele tom que se desenrola o romance de autoria desse sousense radicado em São Paulo.
O livro tem um lado pretensioso. Sarmento anuncia que escreve a epopeia do sertanejo do Nordeste ao longo de mais de 100 anos de miséria, exploração e fuga da seca. Sim, parece pretensão dizer que o livro se pretende a isso, mas Sarmento consegue muito bem realizar seu intento. A obra tem como pano de fundo diversos acontecimentos que marcaram a história do Brasil, como a Guerra de Canudos e a Intentona Comunista, entre outros fatos históricos. Então, de certa forma ele realiza sua intenção, lembrando, em certos momentos, alguns filmes do neorrealismo italiano.
Mas o que prevelece com tintas fortes no livro é o realismo fantástico que envolve seus personagens. Principalmente da família protagonista. Como todas as famílias abandonadas pelo poder público no sertão nordestino que passam necessidade em função de seca e têm que se virar como se é possível para sobreviver, a grande família Silva não foge à regra, mas ela tem uma característica toda sua. É tão “fantástica”, que atrai as atenções de um circo. Afinal, qual circo não iria querer entre suas atrações alguém como José Divino Silva, que andava de cabeça para baixo? Ele mesmo, como narrador da trama, conta:
“Foi quando descobri a façanha e a astúcia que era andar de cabeça para baixo também profissionalmente. Formatado na esperteza pelo modo em que tudo começou, quando mãe me jogou no buraco e caí de cabeça para baixo e todos começaram a rir da minha desgraça.
“Tinha que resistir à fome, igual personagem de Mário de Andrade, Macunaíma, para resistir à discriminação nas urbes desse país que se modernizava”.
Mas não só Divino era sui generis. A família toda também atraía as atenções de agentes de circo. A mãe, por exemplo, comia feito uma lagarta e fazia do estômago um saco sem fundo, numa espécie de Dona Redonda de Saramandaia, a grande novela de Dias Gomes? No romance de Sarmento, muitos meninos e meninas da Grande Família Silva dormiam sem a ceia da noite para satisfazer a gula da mãe.
Um dos irmãos de Divino aprendeu a engolir espada. Outro irmão aprendeu a cuspir fogo, depois de encher a boca de querosene. Uma das irmãs chora lágrimas de sangue. Outra irmã mostra ter a vagina mais profunda do que de qualquer mulher e prova isso colocando um tronco grosso de aroeira dentro de suas partes íntimas. Um terceiro irmão engoliu dinamite e o fez explodir no intestino, e por ai vão as estranhezas fantásticas da família para agradar o agente do circo.
Claro que o realismo fantástico não é o mote do livro de José Sarmento. “Os Miseráveis da Seca”, como o próprio nome já afirma, é uma obra sobre a luta pela sobrevivência nos rincões nordestinos de uma grande família que vive à margem da sociedade. Por isso as estripulias de filhos e filhas, como assim fazem grandes personagens da literatura e da cultura nordestina, como João Grilo e Pedro Malazarte, entre outros. Ou o próprio Macunaíma, citado por Sarmento no início do livro.
Neste sentido, a obra de Sarmento é um estuário dos costumes, agruras e poucas alegrias dos sertanejos do Nordeste. Como as cantilenas religiosas e a miséria da população em geral, como é relatada neste trecho:
“Cortava o coração de pobre proprietário de pequenas terras ver crianças desbotadas, de olhos fundos da cor da morte, de face baça caveirada em desdita, de barriga esticada com a pele reluzindo ao sol pelos vermes estocados, parecendo mais carcaças humanas perdidas em meio a vendaval inclemente”.
José Sarmento é extremamente realista ao narrar as intempéries de quem vive na seca, dependendo de “favores” dos coronéis, que era quem mandava na região. Mas o autor também narra a alegria da chuva, da comida farta quando o inverno é bom, das brincadeiras de infância. “O sertão dá e tira, tira e dá, desde tempos imemoráveis”, afirma o narrador em várias passagens da obra. O livro fala de um Nordeste que já foi mais caracterizado nos romances e obras artísticas. Esse Nordeste acabou? Não temos mais coronéis, fome e sub-raças como antes? Será? Ou a miséria apenas foi modernizada e romantizada para ser consumida nas salas de cinema?
Linaldo Guedes é poeta, jornalista e editor. Com 11 livros publicados e textos em mais de trinta obras nos mais diversos gêneros, é membro-fundador da Academia Cajazeirense de Artes e Letras (Acal), mestre em Ciências da Religião e editor na Arribaçã Editora. Reside em Cajazeiras, Alto Sertão da Paraíba, e nasceu em 1968.
domingo, 23 de maio de 2021
AQUI TEM HISTÓRIA - PRIMEIROS MESES EM SÃO PAULO
Tempão que São Paulo não me chama de baiano. Ao aportar aqui e cair na vida da construção da estação Sé do metrô para trabalhar como auxiliar de almoxarife, no meio do ano de 1977, (antes de conseguir ser profissional do audiovisual, e depois de ser ajudante numa metalúrgica em Santo André) era tratado assim pelos “paulistas” meia boca filhos ou netos de nordestinos, e os nordestinos de mesmo teor de fervura na discriminação que, como eu, tentavam a vida na grande metrópole. Talvez pela minha figura típica dos conterrâneos, baixo, meio troncudo, narigudo, cabeça sem débito para com a raça inteiramente branca descendentes natos de imigrantes europeus. Se fosse, talvez não me tratassem desse modo. Dizia. Sou baiano paraibano. E tu? Sou baiano sergipano, alagoano, piauiense...Tempo que se podia ser racista estrutural. Em tudo. Menos andar sem a carteira profissional pelas ruas do centro ou periferia. A ditadura te dava umas cacetadas nas costas, chute nas pernas, tapa na cara de mão aberta, murro na boca do estômago, e se fosse subversivo de querer explodir bancos pra assaltar, sequestrar embaixador, te levavam pro pau de arara, ou direto pras covas clandestinas no bairro de Perus. Na minha boca andava uma língua presa sem poder falar, gritar, cantar ou poetizar a palavra liberdade, por também ter uma timidez quase incurável. Pelo meu tamanho aos 20 anos me chamavam de menino. Inda bem que a vida como profissional do audiovisual me curou. Pra sobreviver o que a gente não faz, hein! Tudo dentro da lei e da ordem. O problema hj em dia é chegar a idade em que estou, 66, e perceber o quanto é ruim os esquemas do: CANCELAMENTO. Escritor que não ganhou fama, prêmio ou dinheiro, na minha idade, não tem valor CULTURAL, inda mais vivendo fora do seu habitat natural. São Paulo valoriza quem está no máximo da sua produção, quem não, é cuspido no lixo que não serve nem pra reciclagem.
De qualquer maneira, obrigado e feliz 470 primaveras, por ter me acolhido e não me engolido por inteiro, minha cabeça ficou de fora da tua grande boca e conseguiu enxergar as tuas beiradas com os nordestinos tentando das tuas ruas retirar o sustento.
sábado, 10 de abril de 2021
sexta-feira, 2 de abril de 2021
AQUI TEM HISTÓRIA - A VIDA NO BIXIGA
A vida no Bixiga, nos anos 70/80 e daí em
diante, era muito diferente da de outros bairros do centro de São Paulo. Luxo e
pobreza não apenas coexistiam, trombavam-se todos os dias, dividindo os mesmos
passos num caminhar de sonhos e desilusões para quem era retirante nordestino.
O luxo vinha da classe média local e de gente
de fora, que lotava teatros, casas noturnas e cantinas. A rua 13 de maio
fervilhava, especialmente nas festas de Nossa Senhora Achiropita, enquanto o
samba ecoava forte com os sambistas da Vai-Vai batendo forte nos instrumentos.
O bairro também vivia cinema: produtoras como
Linx Filmes e Diana Cinematografia, além de laboratórios de revelação e efeitos
especiais, faziam dali um polo criativo nos trampos de captação de imagens em
35mm. Mais tarde, eu mesmo pisaria nesse terreno do criativo, foi ali que dei
pontapé inicial da minha carreira como técnico de luz e elétrica, na Boca do
Lixo, trabalhando como gaffer.
Já a pobreza...Ah, essa era abancada de gente
como eu. Retirantes, migrantes de todos os cantos que entravam na metrópole com
a promessa no juízo de vida melhor. No Bixiga, culturas se misturavam, às vezes
em confraternização, às vezes em confronto. A violência também fazia parte da
paisagem: nas ruas e nos quartos apertados, circulavam traficantes abastecendo quem
gostava das experiências nas noitadas puxadas, enquanto homens despejavam
tapas, murros e beijos forçados nos corpos das mulheres.
O Bixiga é perto de tudo. Tem estrutura, tem
movimento. Eu atravessava o Viaduto Estadão, onde comia um sanduba de pernil
caprichado depois de sair da Rua do Triunfo. De lá seguia para o cortiço onde
morava, na Rua Abolição.
As tardes da semana, bastava atravessar o
viaduto, estava no coração da cidade: Biblioteca Mário de Andrade, Teatro
Municipal (onde assistia peças a preços populares), Viaduto do Chá, Mercadão
com seu sanduíche de mortadela, Rua Direita, Praça da Sé, Mappin. Aos domingos,
a Estação São Bento virava meu destino, para ver bandas de todos os estilos.
Os cortiços e os pequenos apartamentos,
apertados, abarrotados, eram abrigo de muita gente. As quitinetes mal
comportavam dois ou três, mas sempre cabia mais um. Como hoje ainda acontece
com latinos e africanos, era o jeito de sobreviver.
Lembro das mulheres das boates da Boca do
Luxo, dividindo quartos no cortiço aonde eu morava. Algumas, mais produzidas,
com seus corpos esculturais, conseguiam subir na vida mais rápido, arranjando
lugares melhores para morar logo em seguida. Outras, mais velhas, menos
“ajeitadas”, já no fim da carreira, permaneciam mais tempo nos cortiços. Viviam
de se oferecer nas ruas da Boca do Lixo, agarrando transeuntes, expondo seus
corpos, lutando por mais uma noite de sustento.
Mas havia algo em comum entre todas elas: o
sonho. Sonhavam em fazer uma ponta, ou quem sabe virar protagonistas nos filmes
produzidos na Rua do Triunfo, primeiro as chanchadas, depois
produções mais ousadas, até chegar ao cinema pornô.
Era uma vida dura. De luta constante, de
utopias fragilizadas. Mas, ainda assim, tinha seu porvir, principalmente quando
a gente é novo e acredita que o futuro vem como um trem imenso, carregado de
conquistas, pronto para parar bem na nossa frente abrir a porta e mandar a
gente entrar para uma viagem de conquistas e riquezas.
terça-feira, 16 de março de 2021
Novo livro. Os Miseráveis da Seca, de José Sarmento,EUSINHÔÔ, tem narrativa e estética sertaneja e nordestina sobre seca, fome, migração para os grandes centros, e a violência do coronelato da terra. 315 páginas. Editora FiloCzar. Sobre um Brasil mesclado de ficção e histórias surreais que perpassa o realismo fantástico, desde a virada do século 19, correndo todo século 20, até desembocar na primeira eleição de um operário para presidente da república.Os miseráveis da Seaca não me levou a deixar de andar de cabeça pra baixo!






