segunda-feira, 30 de março de 2026


 AQUI TEM HISTPRIA

Na minha família, entenda, irmãos, existem dois José Marques Sarmento. O primeiro sou EU, José Marques Sarmento. Tive que ser registrado como José, por ter nascido no dia 19 de março, dia de São José. Se não recebesse o nome do santo padroeiro do agricultor sertanejo, uma desgraça poderia ocorrer com o menino.

 O segundo é meu irmão, José Marques Sarmento, 2 anos mais novo do que eu.

Na verdade, ele era pra se chamar José Carlos Marques Sarmento. Nome pomposo para o sertão daquela época antes da vidara para a década de 1960.Eu nasci em 1957, ele em 1959.

História um tanto engraçada, ao mesmo tempo triste.

Digo, Meu pai Antônio Aurélio Marques Sarmento, analfabeto geral e irrestrito, daqueles que nem sabia escrever o nome, assinava com o dedão polegar os documentos, esqueceu de pôr o Carlos no nome geral do filho 05, no momento do registro no cartório da cidade de Sousa.

Meu pai, antes de chegar ao cartório caminhando por uma rua do centro da cidade de Sousa, passou em frente a um bar, não pensou duas vezes: vou tomar uma talagada antes, pra tirar as inhacas do dia. Ao resolver molhar a garganta, não se contentou apenas com uma lapada de cana daquela que derruba o guarda, foi logo três, uma atrás da outra, sem tira-gosto de torresmo, carne seca ou sarapatel.

Era homem fraco pra beber o velho Antônio, trabalhava no pesado e não se alimentava nos conformes para quem tinha como instrumentos de trabalho nos campos irrigados do perímetro de São Gonçalo enxadas, pás, picaretas, machados, foices, era um pau pra toda obra nas mãos dos encarregados e engenheiros agrícolas do DNOCS.

De frente para a mulher que atendeu, ela pergunta, seu Antônio, como se chamara seu filho que vai ser registrado.

José...

José de?

José...Marques Sarmento

Simplesmente meu pai Antônio esqueceu o Carlos no nome do meu irmão.

Até hoje convivemos como homônimos na mesma família, tendo como diferença, o dia de nascimento, o mês, o ano e os registros de RG e CPF.

No mais somos iguais, inclusive na cor da pele, somos os pardos da família que puxou a mãe cabocla sertaneja Francisca, que tem a maioria branca, por parte do meu pai.

Meu irmão hoje em dia é aposentado como agricultor, eu como sonhador.

sexta-feira, 16 de janeiro de 2026

TÁ OSSO

Meus ossos de uma hora pra outra pegaram rebelar-se com minha presença sempre exigindo deles mais esforço pra chegar em algum lugar de difícil alcance.

Nas corridas malucas pra perder peso uma hora empacou, me fizeram estancar de supetão por se amolecer por entre as minhas carnes e dizer pra que eu não saísse do lugar. Castigo pra um coroa que se acha menino e não quer vê no tempo um parceiro que exaure.

Ralhou: isso não é vida companheiro de luta, irmão das mesmas angústias. Somos sangue do mesmo sangue, filhos do mesmo DNA, temos que entrar num acordo, preciso ser cuidado com mais zelo pra durar igual pode durar toda estrutura mole do teu corpo.

Noutras corridas pra chegar primeiro nas oportunidades que apareciam, meus ossos também se fizeram amolecer. Se revoltaram.

De uns tempos pra cá anda me avisando: segure a onde meu irmão, somos do mesmo corpo, da mesma estrutura, regados pelo mesmo sangue, o que você engole, a me chega pelos teus excessos.

            Meus ossos querem me fazer retrair na corrida pra se colocar para tentar coisas boas que a vida tem pra dar de alguns anos pra cá.

Toda vez que meus ossos acham que excedo para o plantio de algum feito que acho razoável, pra me colocar perante a sociedade, eles me deixam no chão sem poder levantar.

Quando estou ávido para chegar correndo feito um tantã em algum lugar, muitas vezes meus ossos dizem que esqueço de que ter uma vida saudável é melhor, pois, com o tempo, outros elementos que formam o corpo humano, que participam dos mesmos eventos, logo estarão pedindo arrego.

Quando ocorre de se revoltar, meus ossos acabam amolecendo, se tornando uma espécie de borracha que não quebra quando enverga, mas me retira às forças para que meu corpo não chegue aonde quero, nem a mente fique alegre.

Nessas ocasiões acabo ficando puto com os meus ossos, quando me ponho se arrastar  no lugar que me encontro clamando a eles que tornem  endurecer, foi pra isso que os milhares de séculos existiram, pra formar o ser humano como é hoje, com ossos obedientes e equilibrados para sustentação das outras partes do corpo.

Diz: não, meu irmão, tou agindo com você desse modo pra segurar sua onde, sua loucura de querer estar em todo lugar se desgastando de forma a me deixar com menos tempo de vida. Sou tua parte mais dura como elemento de sustentação do teu corpo, mas não sou dono da sua mente, de seus desejos, por causa disso, uso da artimanha e do poder que tenho, que pra mim é sabedoria, de te segurar, quando eu passo a ficar  mole nas tuas junções e armadura esquelética. Se ficando mole, levando você a cair e se arrastar, não consigo lhe deixar parado por muito, imagine se não usasse dessa arte de amolecer. Sou ossos sábios. Entendi com o tempo que só amolecendo  por dentro pra lhe fazer entender que tem hora que as paradas às reflexões são necessárias, com isso consigo te parar por fora, te estancar em algum canto do teu ser desobediente, que tá sempre querendo bater no vento que sopra contra  ti.

Acho que meus ossos têm muito ciúme das minhas correrias e buscas e sonhos e realizações. Quer me fazer um João Bobo, uma marionete, Zé ninguém, tem ciúme das noitadas franqueadas quando estou de caso amoroso com alguém que ele não acha bacana ou não vai com a cara. Acho que meus ossos acham que quem tem que gozar são eles. Até já se meteram com o meu pau, dizendo a ele que fizesse e agisse como eles agem, amolecesse também nas horas que não comungasse das mesmas idéias e desejos, nas horas das felicidades estremadas. Essas situações na vida das pessoas são um pecado pra vida que se quer levar até os noventa anos, dizem eles. Apesar do meu pau não ter osso, uma vez ou outra quer acompanhar as ideais dos meus ossos. Parece um pau sem caráter, vai pela conversa dos outros, mesmo sabendo que mais tarde pagará alto preço pelas bobagens que faz.

Tem uma coisa estranha na minha relação com os meus ossos. Parece que eles não me querem ver feliz. Quando rio, já sinto por dentro do corpo uma comichão, são meus ossos agindo pra me fazer retrair e se tornar mais comedido. Outro dia estava eu com os amigos farreando, quando na hora do desfecho do prazer inigualável, me fez arriar e ficar estatelado sem poder sair do lugar. Tudo amoleceu. Meus amigos ficaram sem saber o que fazer, foi quando tive que acalmá-los, dizendo que com os meus ossos eu me entendia. Daí a pouco fiquei triste, foi quando voltou a endurecer, mais daí a farra acabou, perdi a graça e a calma, senti vontade de pegar uma furadeira, uma serra copo, esmerilhadeira, moto serra e cortar meus ossos em pedaços minúsculos pra nunca mais fazer feio quando das minhas alegrias.

Como grande parte dos elementos do meu corpo também é mole, e ser meus ossos que formam a minha estrutura firme feito rocha, nessas horas fico sem ter como me movimentar. Acabo comedindo pra que eles revoguem a greve que fazem pra com a minha pessoa quando está feliz.

Acho meus ossos muito invejosos de mim. Por que sou uma pessoa solta, sem vínculo psicótico com nada, sem apego, livre, leve e solto no pasto feito um potro em busca de ração que lhe aqueça o estomago e a alegria sobre uma fêmea. Inveja é uma pedra que se atira na direção de quem não se gosta, mas quem recebe não sabe de que direção partiu, isto é, quando não se conhece quem é o invejoso, mas no caso dos meus ossos, não, eu os conheço, afinal nascemos juntos, somos do mesmo espaço, ocupamos a mesma estrutura, movimentamos no mesmo conjunto pra todo lado, não tinham porque ter inveja de mim, já que aonde vou, os levo.

Em varias situações meus ossos me deixam nervoso, é quando se acham sabichões, e eu o bobão, se acham o Doutor Honoris Causa da sabedoria do equilíbrio da saúde física. Enche o saco: para de beber álcool, toma cálcio, come tal fruta com tal letra, você quer que eu morra antes de você pra ficar por aí gandaiando pelas noites poéticas, se empantufando de proteína animal, criando calo na barriga, desgastando os órgãos internos ingerindo o que não presta como alimento. Respeita Zé! Sou teu e você é meu!

 

quinta-feira, 19 de junho de 2025

 

Vai um oxente aê?
Vai um carne seca aê?
Vai um pé rachado aê?
Leva. Não custa quase nada.
Só um prato de comida da sobra da elite e burguesia.
Leva eu. Valho um pouco de água filtrada pelo teu preconceito e racismo.
Aceita Eu. Sou pau de arara bom de enxada que cortou estrada poeirenta esburacada.
Leva eu para dentro do olho do furacão da produção das grandes cidades.
Leva eu para dentro do furacão das portarias dos prédios construídos por mãos como as minhas, sem direito à moradia.
Leva eu para casa de famílias ricas e classe média, pra servir de cabide para as tuas necessidades.
Sei que minha cabeça achatada muito chateia os de cabeça alinhada pelo DNA Europeu.
Leva aê, um nordestino. Diacho!
Somos pau mandado pra toda obra mal acabada.
Somos filhos da aroeira, do angico, algaroba...Oh, glória!
Terra rachada se confunde com a sola dos nossos pés.
Leva nóis. Não custa quase nada.
Nem pra tua atenção pedimos admiração na solidão dos quartinhos dos fundos do teu casarão.
Somos atenção 24 horas por dia pra ti.
Calado do teu lado com um copo de água na mão, servimos na tua
refeição.
Passamos pano no teu chão. Passamos peças de roupas caras cantando Ave Maria.
Lavamos no tanque tuas cuecas, calcinhas, meias... Verdades. Verdade!
Na cozinha somos mestras no fogão. Não só pra fazer feijão.
Recheamos teus legumes com nossa carne picotada explorada desde antigas gerações.
Com um pouco mais de atenção, vocês até podem nos usar nos prazeres sexuais.
Somos fortes nos gozos e gemidos.
Ora! Vivemos carentes na dormência dos dias de tanto vos servir.
Leva nós. Os nordestinos. Custamos pouco.
A fome e a seca nos ensinou ser fortes como os “cabra de Antônio
Conselheiro”.
Leva nóis pra te servir.
Não esqueçam d’uma coisa.
Aprendemos nos defender da exploração do sul e do sudeste.
E lá de cima. Do Nordeste. Também!
A educação e os estudos foram as armas.