quinta-feira, 7 de dezembro de 2023

AQUI TEM HISTÓRIA - A DESCOBERTA DA LEITURA



 AQUI TEM HISTÓRIA - A DESCOBERTA DA LEITURA
No tempo d'eu menino, depois de aprender a ler corrido aos 14 anos, era o que tinha de livro e literatura pra me retirar da vida dura da realidade da seca, ou de invernos que não se seguravam, e mesmo assim, tinha que ir pro cabo da enxada. Livros que circulavam de mão em mão depois de largar os bolsos de alguns jovens e adultos, me transportavam pra subjetividade, assim, fugia da realidade de pobreza quase extrema.
Gibi não tive acesso nem livros de histórias infantis e juvenis. Revistas de fotonovela, às vezes, aparecia na casa de umas primas, lia até acabar a história. Sonhava com as fotos das revistas com gente diferente das que convivia, tipo uns perebentos, uns buchudos, uns só os ossos à mostra, outros azaranzados nas suas loucuras andando pelos aceiros das picadas falando com seus demônios, remendados ou rasgados com as tiras mostrando a pele áspera queimada por quentura medonha de tanto entrar nas matas pra cortar lenha, tacar no espinhaço dos jegues e vender de porta em porta.
Já na grande metrópole paulistana, (1977) com 20 anos de vida sertaneja na cacunda e na cabeça, começando entrar no sangue a vida em guerra pra sobreviver na urbanidade, sem desmandos, fui descobrindo outro tipo de leitura, as mais elaboradas, de autores que hoje são sinônimos de literatura clássica, sem deixar de viajar na escrita popular. Os romances sempre me tomaram mais tempo do que a poesia, mas dela não escapava, lia e já dizia no silêncio de mim mesmo num quartinho de cortiço do bairro do Brás e Bixiga.

Nenhum comentário: