segunda-feira, 29 de junho de 2020

NASCI COM UM CANTO DE GUERRA ENTALADO NA GARGANTA


NASCI COM UM CANTO DE GUERRA ENTALADO NA GARGANTA
Escalei muralhas pra fugir das armadilhas do medo.
Desde o sertão.
Sempre tive que usar meu corpo de ferro uma hora embrutecido, outra hora leve.
Minha mente harmoniosa na razão numa hora, outra na emoção.
Não deixar meu estômago rachar na solidão por falta de alimento. 
Era uma das muitas batalhas.
Naqueles anos de 1977 quando aqui na Sampa cheguei.
Como espectros via homens armados preparados na praça.
Os vultos gargalhavam em chacota às nossas lutas.
Pisavam endiabrados no sangue preto, pobre, nordestino.
Eram todos malvados.
Estavam seguros pra fincar-se no trono da opressão.
Em nome do comandante em chefe.
Pobres trabalhadores eram vergados por balas de borracha e cassetetes.
Tempos difíceis.
A lição do manual pedia pra atirar. A eles.
Os velhos generais se apossaram do comando. Do poder.
Eram hienas com sede de sangue, da carne dos operários.
Passar por cima da carta maior pra eles não era problema.
E de nosso corpo.
Experientes na forma de tratar a gente desempregada.
Com violência.
O topo da pirâmide sempre foi intocável.
O meio da pirâmide sempre foi boa em negociata.
A base da pirâmide nunca soube a quem recorrer.
Sobravam as ruas e praças pra se manifestar sem pedir arrego.
Só a união dos grandes guerreiros vencerá a guerra.
Centenas, milhares, milhões.
Perdemos muitos do movimento nos dias de chumbo.
Não, não as mãos para o alto.
Gritava a multidão como massa compacta.
Sede de vingança. 
Sentimento que nos alimenta desde que nascemos.
Preparem as armas.
O canto de guerra.
Ela está pra começar.
Mais uma vez!
Descolonizar, descolonizar, descolonizar!!!
José Sarmento


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